28.10.06

Amanha quero acordar assim!

Maria Teresa Horta

Sem ti

Não quero viver sem ti
mais nenhum tempo.

Nem sequer um segundo

do teu sono.

Encostar-me toda a ti

eu não invento.

Tu és a minha vida o tempo todo

Hoje adormeço assim!!!

Zélia Duncan

Não tem volta

Se você vai por muito tempo
você nunca volta.
Você retorna,
você contorna
mas não tem volta
a estrada te sopra pro alto
pra outro lado
enquanto
aquele tempo
vai mudando.
Aí, de quando
em quando você lembra
aquele beijo,
aquele medomas
você sabe
que tudo ficou antigo
e você não volta
nem com escolta
nem amarrado
porque o passado
já te perdeu
e o perigo
muda mesmo de endereço.
Não existe pretexto.
O dia mudou
o carteiro não veio
o principio é o meio
e você retorna
mas não tem volta.

Hoje acordei assim!

Florbela Espanca

Se tu viesses ver-me...


Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

20.10.06

Tarde demais!



"Por vezes dizemos as coisas tarde demais. Lembramo-nos do que poderíamos ter dito ao outro quando o perdemos ou quando estamos prestes a perdê-lo. Porque nos custa tanto dizer o que podemos dizer no tempo certo?"

19.10.06

Vazio...


Paixão, ainda és a minha princesa e vou continuar a sentir a falta. Principalmente daquilo que sentia quando estava contigo. A serenidade absoluta. A certeza do que queria e do que era dispensável. Parece cola daquela transparente que se vende em tubinhos tamanho miniatura. Não te consigo arrancar daqui. Falta-me quase tudo em mim desde que me desisti de te procurar. Falta-me o cheiro, o riso, a lucidêz. As memórias de ti têm cores e sons e afagos de carinho impossíveis até agora de sentir com mais alguem. A vontade irreprimível de te escrever. Os sentidos ao rubro acesos pelas tuas mãos na minha pele. Os doces minutos pós-sexo que quase sempre terminavam no recomeço. A viagem de regresso que era apenas o inicio da próxima. As ultimas horas antes de cada encontro eram já esse encontro e as seguintes eram a planificação de um outro. Porque sabes, nós nunca terminavamos nada. Tudo tinha continuidade. Nunca me habituei a ter alguem tão perto que me sentisse sem ar para respirar. Sempre desejei amar á distancia certa, o que que significa apenas que troco fácilmente duas ou três horas de compensadora intimidade a dois, por uma noite inteira a dormir e acordar agarrado a alguem. Hoje sinto a tua falta nesta solidão mal acompanhada e pior resolvida. Não sei sinceramente se é de ti que sinto falta ou de mim quando te tinha. Sei que sinto falta.

16.10.06

Liberdade!


Porque me parece MUITO importante e actual, transcrevo este artigo publicado no JN de Portugal e que a minha atenta amiga Maria http://romadevidro.blogspot.com/ enviou!!
Para se ser livre é preciso coragem, muita coragem. E, desde logo, coragem para uma escolha fundamental, a do respeito por si mesmo. Porque é bem mais fácil sobreviver acobardando-se do que escolher viver livremente. Os locais de trabalho, a vida política, a mera existência social, estão (basta olhar em volta) cheios de cobardes de sucesso. O jornalismo não é, e porque haveria de ser?, excepção, pois a pusilanimidade e a cumplicidade dão menos incómodos e rendem mais que a dignidade. Mas, enquanto na vida politica e social, o preço da liberdade é a solidão (as águias, como Nietzsche escreve, voam solitárias; os corvos andam e grasnam em bandos), no jornalismo o preço é às vezes a própria vida. Anna Politkovskaya escolheu a liberdade e pagou com a vida.

Mas a Rússia é um lugar longínquo e entre nós não se dão tiros na nuca a jornalistas, na pior das hipóteses despedem-se. É, por isso, fácil chorar por Anna Polit-kovs-kaya, basta só um pouco de falta de pudor. Assim, os jornais portugueses (e do mundo inteiro, acrescentamos nós) encheram-se nos últimos dias de grasnidos e lágrimas de crocodilo vertidas por gente que, na sua própria vida profissional, escolhe o salário do medo. Alguns conheço-os eu e, como no soneto de Arvers, hão-de ler-me e perguntar "De quem falará ele?".
Manuel António Pina
In: J. N. 2006.10.10

6.10.06

A verdade (copy paste)


Pensara em dizer-lho um milhão de vezes; a vontade de lhe vomitar em cima o que acontecera naquela noite, assaltava-o nos momentos mais estranhos: enquanto ela lia uma revista sentada na sanita, cortava as unhas dos pés ou pintava as das mãos, ou enquanto desembaraçava o cabelo em frente ao espelho. Era como se a insignificância dos rituais diários dela pudesse, de alguma forma, tornar pequeno e de somenos aquilo que ele lhe queria revelar, como se fosse algo igualmente mecânico e descartável, venha daí outra coisa qualquer e sigamos para bingo.
Uma vez, pensara em dizer-lho enquanto ela se depilava numa operação demorada de cera a frio. Olhava-a, febril (ela, concentrada que estava naquele timing perfeito do espalha-arranca), antevendo o momento em que lhe despejaria em cima o seu balde de revelações sujas, qual porteira distraída. O que ele não supunha era que ela, careca de saber da angústia culposa que lhe roía as noites, se concentrava sempre um bocadinho mais nas unhas, nos pés, nos cabelos e se mostrava totalmente indisponível para a abébia que ele queria que ela lhe desse. Se entrava na casa de banho, ela saía de rajada em busca de um creme esquecido e, se se sentava ao seu lado na cama, a ela, assomava-lhe um sono súbito que lhe toldava a percepção. Outras vezes, quando ele estava quase, quase, lembras-te daquela noite em que eu..., ela atalhava, ceifando-lhe as palavras tossidas por entre suores frios, passas-me o papel higiénico, por favor?, ao que se seguia uma reflexão sobre a pasta de papel e o seu peso nas indústrias poluidoras. E ele lá ia adiando a confissão, adiando uma e outra vez, aquele menir que lhe esmagava o esterno sem quase o deixar respirar.
A hipótese de não lho dizer de todo nunca se colocara, pois ele era daqueles que cultivava a verdade a qualquer custo, que a mimava e alimentava como a uma filha ou a uma planta, gerada que fora no seio dos pergaminhos familiares. Assapado no totalitarismo do conceito de verdade como sendo algo de absoluto e válido por si só, escapou-lhe a evidência: de que a dita também pode correr subterrânea, como um lençol freático que segue manso e não deve vir ao de cima nem, muito menos, jorrar tipo geiser, sob pena de inundação diluviana dos sentimentos e de todos os seus anexos. Não intuiu, ele, que alturas há em que a verdade, para o ser, basta ser pressentida, sem precisão de se exibir nua num striptease de perna aberta à volta de um varão, em exposição pornográfica e a arfar sobre os clientes os seus sonhos distantes; e provou assim desconhecer o poder de devastação nuclear de uma verdade que se queria calada - um poder, destruidor não apenas dela própria, mas também de todas as outras verdades que a vida deles transportava em compartimentos interiores e malas de viagem e que, num segundo, se desfizeram em poeira atómica.
Ela tentou dizer-lho: a cada vez que desatava a discorrer sobre o peso do papel higiénico no meio ambiente ela estava a avisá-lo, a enviar-lhe sinais para que guardasse as palavras bem embrulhadinhas dentro dele, para que as dobrasse em quatro, depois em oito e por fim em dezasseis, para que fizesse com elas um quantos queres, um avião, um barquinho ou uma bola de cuspo, e as atirasse ao ar ou lhes puxasse fogo, que ela não as queria. Só que, quanto mais ela fugia, mais ele corria atrás dela, desalmado, a desfraldar-lhe a história daquela noite em estandarte, um vozeirão épico de valquíria a querer sair-lhe do peito e ela sempre a tapar os ouvidos, lailaraiquenãoqueronemsaber.
Que burro fora, ele. Sempre com a boca cheia de verdade, para aqui e para acolá: sobrevalorização nítida. Falta de senso. De sentido das proporções. De instinto de sobrevivência amoroso. Não teriam sido as fugas dela mais do que suficientes para o redimir? Não poderia ele ter visto, na mímica perfeita do silêncio dela (um silêncio atulhado de futilidades) o perdão e a fuga em frente, o beijo do esquecimento, a passagem secreta para os dias seguintes? Poderia... mas não o fez.
Um dia, enquanto ela se secava à pressa de um duche tardio, ele cercou-a e disparou sem dó nem piedade, lembras-te daquela noite em que eu... E ela, apanhada de surpresa entre a água que lhe escorria e a procura dos chinelos de quarto, não foi a tempo de sacar assunto e viu-se obrigada a engolir a verdade com todos os acompanhamentos, batata frita, arroz e salada, uma anoréctica forçada ao alimento. Uma verdade de merda, diga-se: estúpida, como tudo o que é fortuito, e inútil, como tudo o que nada significa de facto.
Pôs-lhe as malas à porta e nunca mais se viram.
Epílogo.
Ele sentiu-se culpado, mas nunca percebeu que o crime maior que praticara não fora o da traição mas sim o da soberba, ao arrogar-se uma superioridade moral sobre ela (que não detinha): ele contara-lhe a verdade daquela noite vazia, não porque achasse que ela merecia sabê-la, mas por uma questão de princípio; não porque a respeitasse acima de todas as coisas, mas porque não se podia permitir perder o respeito que sentia por si próprio.
Ela, por sua vez, não desarvorou em fúrias de mulher enganada nem em gritarias de culebrón (coisa que nem lhe faria o género); passou, apenas, a olhá-lo como o que ele realmente fora: um idiota perdulário, um pobre esbanjador, que deitara fora tanto por tão pouco. No fundo, limitou-se a achar que ele (não fora aquela rectidão transpirada por todos os seus poros, sempre tão honestos e verticais), poderia mas era ter enfiado a puta da verdade em vários outros sítios, que não entre eles os dois. Básicamente.
Copiado de um texto anónimo recebido por email



5.10.06

A Paz!


Ontem foi o nosso dia da paz... No espirito globalizante dos tempos modernos impressionou-me este texto que retiro do Mulheres e Deusas (link na direita) e que fala exactamente da paz que não sabemos preservar e do caminho que estamos a percorrer como humanidade.

“Como é que, só no século vinte, os seres humanos tenham morto para cima de 100 milhões dos seus semelhantes humanos? Seres humanos a inflingirem a outros sofrimento de tal magnitude ultrapassa tudo o que possas imaginar. E isso sem levar em conta a violência mental, emocional e física, a tortura, a dor e a crueldade que eles continuam a infligir-se uns aos outrs assim como a outros seres viventes numa base diária.

Agem desta maneira por estarem em contacto com o seu estado natural, a alegria da vida interior? Claro que não. Só pessoas que estejam em estado profundamente negativo, que se sintam muito mal, criariam semelhante realidade como reflexo do que sentem. Agora estão empenhadas na destruição da Natureza e do Planeta que as sustenta. Inacreditável, mas verdade. A espécie humana está perigosamente louca e muito doente.” (...)

In “O PODER DO AGORA” de Eckhart Tolle

A Outra Margem


Uns anos atrás, amigos mais chegados, martelavam-me na cabeça sempre que me viam acompanhado por uma nova mulher. Embirravam solenemente com a facilidade com que dava corda a qualquer uma que fosse capaz de debater ou mesmo apenas concordar acerca de qualquer tema menos fútil, mais que quinze minutos sem perguntar se era casado, comprometido ou solteiro. Sempre preferi a companhia de mulheres á dos homens e por essa razão buscava incessantemente na alma femenina a inteligência capaz de me adomar a um sofá á volta de um livro ou a uma cadeira de cinema ou teatro e partilhar assim uma mesma visão que no final daria umas horas de compensador debate intelectual muitas vezes como aquecimento para a inevitável, ou não, contenda fisíca.

A natural quebra das convicções marialvas e donjuaninas, o que traduzido de forma clara quer dizer a idade, acabou arrefecendo este afã de viajante e explorador. Agora contento-me em buscar almas tão perdidas quanto a minha e por isso mais capazes de entender aquilo que nem eu sou capaz de perceber.

No acesso a cada mulher existe sempre como que um rio que tem de se transpôr. Da corrente desse rio depende a facilidade de chegar até lá ou mesmo o grau de desafio que representa a intenção. Já lutei com grandiosas ondas e já fui levado simplesmente ao colo. Claro que algumas vezes desisti mesmo antes de começar e em muitos casos afoguei-me. Ás vezes com a margem á vista.

Vem esta prosa divagante e molhada, a propósito de uma prespectiva de afogamento que se avizinha. A corrente altera-se a cada maré e transporta em cada enchente um sem numero de escolhos que impedem um percurso na direção correta. A força das vagas tem-me empurrado em cada tentativa para o ponto de partida. Presistentemente atiro-me de novo ao charco e, olhos e mente no objectivo, luto contra as ondas e a corrente. Em vão até agora. Acabo sempre esfalfado e esgotado na mesma praia.
Da outra margem chegam palavras de incentivo que ainda não produziram os efeitos desejados apesar da sincerdade. O unico efeito claro é o de me obrigarem sempre a retomar a luta e prometer mim mesmo a cada dia não desistir na esperança de uma bonança que permita chegar lá mas as forças começam a faltar.
Para terminar onde iniciei, falta apenas afirmar que aqueles que á uns anos quase me batiam de cada novo investimento, são agora aqueles que me oferecem colete salva-vidas e incentivam a atirar-me de cabeça para a outra margem. Vá lá um homem entender os amigos.

29.9.06

Ausência


Não tenho a certeza que eu seja a pessoa certa para ti, talvêz porque não consegui nunca perceber o que é isso da pessoa certa. Sei que a pessoa certa não tem necessariamente de ser sempre a mais inteligente, a que escreve as mais belas cartas de amor, a que tem apenas sorrisos no final de cada dia ou a que planeia viagens ao outro lado do mundo. Não tenho a certeza que sou a pessoa certa para ti, porque apesar de querer muito ficar contigo nunca tive a coragem de o dizer-te olhos nos olhos. Mas eu sei de saber confirmado que ser o homem da tua vida seria realizar-me. Porque me fazes falta e principalmente porque a tua ausência de mim me dói. Muito.

Tive medo e ansiedade e depois pressa em conquistar-te, porque sei com quem desejo passar o resto da minha vida e como ninguem sabe quanto tempo é o resto desse tempo, corri para depois travar neste impasse que a cada dia me mata. Mas as certezas essas nunca desapareceram. Antes pelo contrário. Aumentaram.

Queria abraçar-te e entrar em ti com a surpresa da paixão da primeira vêz e com o desejo mal contido de todas as seguintes. Queria ouvir em cada final de dia a música da tua vóz e cantar-te baixinho aquela canção igual a ti, antes de adormeceres. Queria ler-te alto os poemas daquele livro que me ofereceste e respeitar os necessários silêncios vindos de dentro das cicratizes que só o tempo poderá apagar em nós.

Queria muito ser o teu amigo e confidente. Queria muito ouvir-te falar das tuas angustias e alegrias, das muitas vidas que viveste e dos mundos que te deram aquilo que és. Da troca de experiências, dos arrependimentos e das nossas loucuras e muitos erros. Queria olhar com os teus olhos aquele mar que ambos gostamos. Queria ouvir contigos os risos inocentes daqueles que amamos mais que a própria vida, correndo livres na areia da praia.

Posso não ser a pessoa mais coerente ou corajosa do mundo, mas sou de certeza uma pessoa a quem conquistás-te completamente. Posso não ser um incurável romântico que te cobre de flores ou corre para os teus braços em cada sms, mas sou de certeza o homem que é capaz de te puxar o edredon para os ombros a meio da noite para não te constipares ou suportar as tuas birras no final de cada dia mau.

Não te disse tantas vezes quantas devia o quanto te quero, mas sinto cada dia com mais certeza que te conseguiria amar para sempre. Não sou aquele que te procura todos os momentos mas sou de absoluta certeza aquele que nunca te esquece em cada noite.

És muito importante na minha vida. Reconhece-lo não me foi nem é dificil. Falta-me o golpe de asa. Falta-me ser eu. Falta-me ter a certeza de ser o homem que esperas que seja apesar da subjectividade. Falta-me a certeza que necessitas de mim e que serei capaz de te dar tanto quanto julgo ser capaz. Falta-me a certeza da outra metade que sou eu.

26.9.06

Fragmentos


Os dias correm como que em carrocel desgovernado. As certezas são quase nenhumas e a cada hora menos ainda. O espiral frenético das incertezas tomou conta dos momentos e o acordar tornou-se tão doloroso como as antecedentes horas de insónia em que se mergulha antes de adormecer.

Tudo o que ficou atrás deixou de fazer algum sentido e o que vem aí mete medo. Em cada acto de viver sente-se a opressão do sentido e do rumo da vida. Em cada passo oprime-se a decisão de ir á frente na prespectiva eminente do abismo.

Quem vai olhar com complacência aquele que falha sistemáticamente?. Que corda pode salvar alguem que se perdeu nas contradições da vida? A lançada por quem ainda acredita na irreversabilidade do destino ou a da forca?

Não se sabe morrer sózinho por mais treino que se tenha. O tempo parou no tempo de tantos erros carregados nas costas. Falta a luz e a inteligência ou a lucidêz. Faltam sobretudo certezas de se poder voltar a errar sem aumentar a dívida para com todos os que reclamam. Quantas créditos mais tem a vida de um ser humano quando a estrada chega ao fim?. Como se descobre qual o momento certo para mudar e qual o rumo?.

Agoniza-se na prespectiva de mais surprezas que á muito deixaram de o ser. Coloca-se um ponto final na curiosidade. Findada a capacidade de experimentar e de mentir mesmo sabendo-se que toda a gente mente. Parco consolo apesar de ser certo que contrariar isto é sustentar a grande mentira de toda a humanidade. Mente-se no amor, no trabalho, na amizade e na capacidade esgotada e já inexistente de dar mais. Sobretudo mente-se a nós próprios para não ter de auto-justificar as próprias insuficiências. Minimizar esta caracteristica inata é apenas um paleativo porque as mentiras dos outros só nos dizem respeito se criadas ou inventadas acerca de nós. Apesar de em conciência se saber que somos em grande parte responsáveis por elas porque as ajudamos a nascer atravéz da nossa própria mentira de vida.

Quem não encara a sua própria verdade, não pode esperar que não lhe mintam. Isso mesmo. Encarar a verdade e fazer dela o modus vivendi da sociabilidade é uma das saídas possíveis. Despir os fantasmas de serenidade e encarar de forma clara as angustias e as depressões afogadas em orgias de tudo e mais alguma coisa coisa desde que sirvam para esquecer. Invocar espiritos renegados e esquecidos até que ganhem vida. Abrir as portas do armário e colocar na janela todos os esqueletos guardados ao longo da vida. Para que os outros não se limitem a falar do que julgam saber ou daquilo que querem saber e os interroguem para memória presente e futura e julguem com verdade. Fantasmas não mentem.

Para que acabem as perguntas que não tinham o direito de fazer dado que não existem respostas fáceis para questões tão complexas como a coerência de um homem. Para que finalmente se encarem os factos como eles são e não apenas através da perspectiva redutora do próprio umbigo. Com verdades limpas e mentiras claras.

25.9.06

Maputo - Seduções I


Por muita carência que se transporte no corpo e na alma um homem nunca está devidamente municiado para uma cena de sedução quando visita certos locais. Por exemplo na oficina de automóveis entre oleos mal cheirosos e fatos macaco sebentos, jamais passaria pela cabeça de um mortal dar de olhos atrás do balcão das peças com um par de faróis grandes e brilhantes emoldurados por um rosto fabuloso de pele chocolate e lábios grossos a encimar um busto mais que meio descoberto de cortar respiração de tanta sensualidade. Mas acontece. E que fazer num momento desses senão tocar a reunir as tropas, respirar fundo e atamancar uma estratégia de ultima hora que possa conduzir aquela barco a praia segura.
Ultrapassado o factor surpresa que normalmente deixa um pobre macho meio desarmado, passa-se á ofensiva que já dizem os experts nas coisa do futebol, é a melhor defesa. E assume-se uma posição em campo que demonstre de forma clara á femea desafiante que já percebemos o alcance daquela investida e não estamos ali para ser provocados sem ripostar.
Claro que a aproximação se faz atravéz da complexa rede de códigos sinaléticos emitidos por olhares implicitamente questionadores de onde tens andado que nunca te tinha visto? ou ainda mais claro podes aguardar que já te apanho o numero do cell ou um redutoramente conclusivo vai ser na tua flat ou lá na alcatifa do T1?

Depois de um complicado jogo de passos por entre diferenciais, motores e caixas de velocidade espalhados pelo pavimento, tenta-se vencer o labirintico espaço que nos separa fisicamente do balcão e sem nunca desviar por mais que breves segundos os olhos do objectivo, encosta-se o tronco ao balcão e continua-se o jogo agora num já quase corpo a corpo.
Sem muito mais para dizer coloca-se um ar meio desesperado e atira-se com será que vai demorar muito a concluirem a reparação do meu chasso? Ao que ela atrevidamente replica com um explicito espero que apenas depois de receber o seu convite para jantar. Aqui já não existe forma de voltar atrás e uma mão répticiamente levada ao bolso da camisa deixa no balcão um cartão de visita que rápidamente é escondido num qualquer local da vestimenta que guarda aquela corpo de deusa.
Agora resta esperar pela chamada com a certeza absoluta de experiência feita, que o velho Nókia vai cantar nas próximas horas e que a balconista das peças vai de certeza cumprir todas as promessas feitas naqueles breves instantes em que apenas com os olhos ofereceu todos os imensos tesouros e mistérios que são o seu corpo e o espirito livre que é o grande legado genético que esta Africa, cada dia mais misteriosa e fascinante, deixou aos seus filhos.

21.9.06

História com moral

Lucília negra clara de Inhambane, de cima dos seus fogosos 30 aninhos usava saia curtinha, travada e apertadinha, tissagens longas e marrabentava as roliças ancas como onda do mar. Indiferente e altiva, passeva o bombaleante corpo entre as diversas salas da repartição segura do seguro valor daquelas curvas perfeitas, no fundo o unico bem material que possuía.
Jossias, ronga atrevido, vivido e experiente, travava os impulsos dentro das calças lançando olhares famintos nas ancas falantes de Lucília que, jurava ele, lhe chamavam de cada vez que ela se passeava frente á sua secretária. Sofrimento, chamava ele áquela visão diária, ali tão perto e ao mesmo tempo a cada dia mais inatingível.

Celeste negra escura de Mueda, redonda toda ela, carapinha rebelde, mais rouge que pele, mais baton que lábios, deixava transparecer sem sequer disfarçar o intenso desejo que Jossias lhe despertava quando lhe olhava implorante. Sentada frente áquele pedaço de pecado, despia-o várias vezes ao dia com os olhos, enquanto lhe imaginava o corpo de macho colado ao seu. Suspirava ao mesmo tempo que lhe procurava os olhos ou subia prepositadamente a saia deixando á mostra as anafadas coxas que ele parecia nem querer olhar.

Celeste suspirava e despia mentalmente Jossias que cegava parcialmente a cada investida enquanto Jossias sonhava com as ancas dançantes de Lucilia que lhas negava em cada avanço. Assim se escorriam no tempo os dias naquela sala de trabalho, numa atmosfera cada vêz mais tensa de mal disfarçados desejos reprimidos e ciúmes, testemunhados pelos olhares vigilantes de Lucas o chefe de repartição.

Jossias compensava de forma solitária e frequente aquele sofrimento escaldante na intimidade do arquivo morto, na mal conseguida tentativa de se aliviar de tanto volume e tão tentadoras visões. E foi aí que Celeste o encontrou uma tarde manejando o objecto fulcral dos seus calores e de tantos suores infrutíferos. E foi aí que depois de trancar a porta se ajoelhou e se aninhou entre as suas pernas como em súplica:
- É hoje Jossias...

Jossias negou a boca da negra Celeste e instintivamente repeliu-a, não porque não desesperá-se por um alivio momentaneo mas muito porque as ancas marrabentosas de Lucilia não lhe saiam de dentro como espinha cravada na garganta. Afogueado saíu apressado deixando atrás de si um par de joelhos colados ao sujo soalho e duas lágrimas a correrem na face de Celeste.

Lucas, o vigilante chefe de repartição ainda o viu passar descomposto tentando desajeitadamente fechar o zip, quase correndo em direção ao WC. Ali concluíria o alivio inacabado, moendo a raiva de imaginar as ancas roliças de Lucilia rebolando entre as mãos ásperas de Lucas enquanto a imagem das duas lágrimas de Celeste lhe escoriam ainda na alma frustrada…

Moral da história:

Mais vale uma Celeste gordinha de joelhos no arquivo morto, que uma Lucília gingona, nas horas extras sentada na secretária do chefe Lucas.

8.9.06

Afectos, ou aquela dor que vai moendo...


Desalento,
é abrir cem vezes por dia a caixa de email e, apesar de ela saber que aquele post no blogue é exclusivamente para ela, ainda não ter reagido nem sequer com um.... deixa-me em paz!!!

Afectos, ou a falta de...


Hoje,
talvez porque o dia acordou cinzento e triste, trocaria de bom grado esta rotineira monotonia pela macia almofada que é o teu peito... e ainda ousaria pedir-te que te mantivesses silenciosamente submissa para não têr de te justificar ausências injustificáveis.