24.11.07

Metades


se não encontras a tua metade da laranja, não desanimes,
procura a metade do limão, põe-lhe açúcar, aguardente e gelo e...

21.11.07

Escreve-me ...


Escreve-me!
Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d'açucenas!

Escreve-me!
Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor!
Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d'oração!

"Amo-te!"
Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade!

Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então...brandas...serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...

Florbela Espanca

6.11.07

Fazes-me falta


Foi no cinema, lembras-te? Les Parapluies de Cherbourg, um filme deslumbrantemente kitsch, tinha de ser. Entraste tarde, surgiste-me nas ultimas golfadas da música de Michel Legrand, já eu estava a instalar-me na delicia das lágrimas. Os filmes trágico-corriqueiros eram a minha purga semestral, apagava os fusiveis cerebrais, chorava na escuridão como uma menina e saía limpo e luzidio. Entraste tarde, caíste, ofegante, na cadeira ao meu lado. Depois disseste-me que foi nesse momento que os nossos olhos se encontraram. Mas eu não me lembro dos teus olhos. Lembro-me sim do odor do teu corpo, uma mistura excitante de rosas, canela e sexo. Talvez trouxesses ainda o cheiro de algum dos teus amantes – eras uma verdadeira Torre do Tombo passional e estavas sempre disposta a ir repescar uns dados esquecidos a uma pasta antiga.

Mas nessa altura eu nem sequer sabia isso. E nunca me aproximara tanto do teu corpo. O teu cheiro surpreendeu-me pela delicadeza e pela névoa erótica. Encostei o meu braço ao teu e comecei a transpirar. Sentia uma vontade violenta de me desmoronar em ti. Não, não era fazer amor. Fazer amor não existe, porra, o amor não se faz. O amor desaba sobre nós já feito, não o controlamos – por isso o sistema se cansa tanto a substitui-lo pelo sexo, coisa gráfica, aparentemente moldável. Tambem não era foder, fornicar, copular – essas palavras violentas com que tentamos rebentar o amor. Como se fosse possível. Como se o amor não fosse essa fornicação metafisica que nos diz respeito – sofremos-lhe apenas os estilhaços que nos roubam vida e vontade. Eu queria oferecer-te o meu corpo para que o absorvesses no teu. Para que me fizesses desaparecer nos teus ossos. Eu educado no preceito alimentar de que os rapazes comem as raparigas, depois de uma vida inteira de dominio dos talheres queria agora ser comido por ti. Queria entregar-me nas tuas mãos.

E entreguei-me – terás percebido isso? Deixei de saber quem era. Continuo a precisar de ti para existir. Para dormir. Um dia confessei-te que tinha insónias. Terei chegado a explicar-te que as Variações Goldberg de Bach nasceram de um pedido do Conde Kaiserling, que lhe solicitara um tratamento para as insónias? E que por isso Bach escreveu as variações de acordo com uma receita que exigia «uma invariabilidade constante da harmonia fundamental»? Conversávamos pela noite dentro em tua casa, tú já mal conseguias manter as palpebras levantadas. Pedi-te que me deixasses ficar mais um bocadinho, porque me custava entrar em casa sem sono. Pegaste-me na mão,
- anda comigo!
e levaste-me para a cama. Enroscaste-te em mim e começas-te a coçar-me as costas muito devagar. Dormimos muitas e muitas vezes assim – e nunca, nem por um segundo, pensámos em fazer aquilo a que os inocentes chamam sexo. Falámos muito disso sim – desse acto a que as pessoas vão chamando sexo ou amor consoante as conveniências e as circunstancias. Esse acto que as pessoas vão repetindo até á mais exaustiva solidão. Nós não podiamos prescindir um do outro. Não podíamos entrar no infinito jogo finito do corpo. Derramei sobre a tua vida, por incontáveis noites, os meus breves amores perfeitos, pormenor a pormenor. E tu derramas-te sobre a minha as tuas paixões impossíveis, impossíveis de apagar.
Desejo-te tanto, ainda.



Inês Pedrosa - "Fazes-me Falta" - Publicações Dom Quixote

25.10.07

Grito último

Tenho o ventre cheio de palavras.
Não se expelem, as malditas!
Enchem-me de sons e becos
que sei, amor, nada dizem.
Nada para além do indizível.

Embalo-te num afago e sei
que a tua dor foi e é e será a minha.
Afinal...
estamos juntos no abismo da vida.
Afinal só tu poderias entender
o beijo que não sei beijar nas palavras.

Só tu poderias carregar a minha
dor contigo. Nos teus genes.
Na tua incapacidade de ser.
Na tua imperfeição tão perfeita,
meu amor. Tão...
perfeita.

Fogem-me as palavras
o grito último.
Repouso no teu colo
e beijo-te os dedos, faminta.

Só tu meu amor.
Só tu.

(Fairy-Morgaine)

10.10.07

Nada em troca!

"Não confundas o amor com o delírio da posse, que acarreta os piores sofrimentos. Porque, contrariamente à opinião comum, o amor não faz sofrer. O instinto de propriedade, que é o contrário do amor, esse é que faz sofrer. (...) Eu sei assim reconhecer aquele que ama verdadeiramente: é que ele não pode ser prejudicado. O amor verdadeiro começa lá onde não se espera mais nada em troca."
(Antoine de Saint-Exupéry)

9.10.07

Infernos

Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que no meio do inferno não é inferno, e preservá-lo e assim abrir espaços de precepção.” (150)
Ítalo Calvino- "As cidades invisíveis"

14.9.07

Madeleine


É impossível ficar indiferente perante o desenrolar dos acontecimentos relacionados com o desaparecimento em Portugal da menina inglesa chamada Madeleine McCann.

Nos ultimos dias este caso atingiu foros de surrealismo sem limites com as investigações da policia e a procuradoria da justiça a envolverem os pais no desaparecimento da menina. Nesta onda de muitas palavras e pouco bom senso a imprensa tem desempenhado bem o papel de incendiario travestido de bombeiro.

Como pai e pessoa de bem, recuso-me sequer a imaginar aquilo que muitos já dão como factos consumados. E ainda nessa qualidade manterei até prova em contrário uma esperança inquebrável que aqueles olhos meigos não se fecharam para sempre e que as lágrimas derramadas pelos pais não eram de crocodilo.

É em ocasiões como esta que sinto alguma inveja daqueles que acreditam que rezando, o mundo poderia ser diferente.

4.9.07

Africa misteriosa!

Para quê ir á escola se a geografia ainda por explorar está nas formas únicas do meu corpo, a história da humanidade se pode aprender nos meus olhos, a biologia das paixões se vive nos meus lábios, a química da verdadeira fórmula do amor resulta dos meus beijos e tudo quanto se criou de verdadeiramente belo no mundo até hoje, partiu de dentro de mim!!!

14.8.07

Memórias a preto e branco


estranho.
consta por aí que nos amámos em tempos. que o nosso amor até afrontou a moral vigente nas regras da cartilha retrógada, instituída por aqueles que por falta de vida própria vivem a dos outros. referem pormenores sórdidos e passiveis até de excomunhão. falam de caricias infames partilhadas em público enquanto os corpos transpirados se colavam nas pistas de dança. citam os beijos prolongados até á exaustão com o mar como fundo e o sol quente de dezembro como cumplice. criticam as mãos ousadas que trocavam de corpo debaixo dos casacos nos nossos passeios de fim de tarde pela marginal.

estranho.
não me recordo de absolutamente nada destes factos. não sinto nem guardo mais nada deste tempo que não seja medo. medo de a partir do nada que eu diga ou faça, recomeçar mais uma qualquer acusação gratuita e falsa. medo da incontrolável loucura que te possue
de cada vêz que deixas entrar em ti a irracionalidade da doença incurável do ciúme. medo de um dia não ousar conter a raiva e em vêz de bater com a porta, bater-te a ti. medo de mim. medo daquilo que não consigo compreender por mais esforço que faça. medo de antes de desistir voltar a insistir.

Estranho.
Instalou-se-me uma branca que apagou todo o arco iris de quatro anos de vida. espero que o tempo ajude tambem a apagar o buraco negro em que me meti.

27.7.07

Porque me esperas?

Porque me dizes que esperavas mais de mim? Porquê esperar algo de alguem que nada tem? Porque não racionalizas enquanto esperas, aquilo que podias ter dado a mais, esperando menos?.

Não quero mais obrigações morais, infidelidades escondidas ou passeios de familia para enganar a vizinhança.

Não quero dar mais nada por simpatia ou moralismos. Dei tudo quanto tinha a dar e o que tive de volta basta.

Nem receber, porque assim estou bem. Recebi tudo quanto me devias, porque nada. Paixão, sexo, tesão, não se trocam, vivem-se. Mãos, linguas e corpos transpirados não se repartem, oferececem-se. Amor, carinho, e atenção não se exigem, merecem-se.

De ti quero apenas a distancia entre o silêncio completo e o olhar cumplice. Nada de palavras e cobranças fisicas ou morais. Melhor ainda. Porque sou imoral tal como afirmas, quero a estrada livre para ir e voltar. Sem prévio aviso. Quando o corpo me pedir o teu e o teu me aceitar assim.

Tal como o predador da noite, quero a cancela aberta, escancarada. O salvo conduto para o abismo de onde ambos não merecemos sair.

Mas por favôr, não me exijas em troca que venda a consciência ao desbarato.

30.6.07

As sete maravilhas da blogosfera


Depois de bondosamente votado para As Sete Maravilhas da Blogosfera, nacostadoindico não poderia deixar de participar na nomeação, apesar da subjectividade das opiniões de cada um. Aqui ficam as nomeações cá da casa:
Momentos de Vida - "Qual será o tamanho do Claustro neste cérebro? Uma tempestade tropical de progesterona. Um fenómeno que, ou muito nos enganamos, ainda acaba perpétuado nas montras de muita livraria"

Crónicas - "Intimo, intimista. Revolta interior que transborda para quem lê. Um Xokolate muito doce"

Womanhood - "Tú sabes porquê"

Contos Secretos - "Um hábito diário de auto-carinho. Indispensável"

Ma-chamba - "A verdade contada por quem sabe. A opinião que vale a pena lêr"

Passeai Flores - "O mundo dos baixinhos contado por uma mãe super talentosa"

Cenas de Gaja - "A Princesa que nunca cresce. Sissi no conturbado e confuso mundo dos grandes. Inteligente e pouco convencional"



Existem claro muitos outras praias onde nos perdemos. Mas estas são de visita obrigatória.

25.6.07

Surreal


Quando, ao fim de quatro turtuosos anos de vivência feita de inconscientes surrealismos em que os melhores momentos são os raros períodos de silêncio ou a partilhada paixão pelos filhos, como se distingue o que é a normalidade nas desconexas conversas de surdos que caracterizam o fim da estrada?

Prova de saúde mental não será conseguir sair de um pesadelo destes sem andar a falar sózinho pelas ruas?
Bem... eu ainda ando ás vezes... mas menos agora que á uma semana atrás...

13.6.07

Retalhos de uma semana em farrapos (cacos)



- “Pai, lá no teu escritório tem cama?” ... ops!!! como explicar...

- “ Pai, esta noite destapei-me e tive frio. Tú não me tapaste. Não me tapaste porquê? ....
fod......

- “Paizinho, tú na lavas os dentes pq eu vi a tua escova lá em casa na casa de banho!” ...
será possível k ela ande á procura das minhas coisas pela casa?

- "Paizinho akela foto onde o André e o Daniel estão a rir e a olhar pa mim, k estava na tua mesa a Julia escondeu ou alguem roubou!! ... não minha filha... apenas mudou de mesa... (confirma-se. ela anda á procura dos meus objectos pela casa...)

- "Pai, já não me dizes mais a palavra mágica quando eu acordo?" ....
digo filha, a cada minuto e em cada lágrima, “amo-te”..

- “Pai tu já não gostas da mamy?” ....
desta não me vou safar sem responder...

-“Pai, se não subires para almoçar eu tambem não almoço e prontos...”
....fogo... e agora?

- “ Pai, fecha a luz do escritório e vem agora. Tens de tomar banho e descer comigo. Já tá a ficar tarde e o meu professor fica triste quando chego tarde”.. 6,30 da manhã ao telefone...

- ”Pai sobe comigo ao colo. Tou cansada, estudei mt hoje... depois podes descer e ir trabalhar!” ...
não minha filha se subir vou acabar por descer a chorar outra vêz... pior k isso... já estou...

- "Papá eu amanhã vou trabalhar contigo... depois vamos almoçar... e depois tu vais trabalhar até ser noite e eu vou andar na bicicleta lá no teu escritório. Vou estar todo o dia contigo”... fod.. mais uma vêz k dói tanto...

- "Pai.. eu não quero cantar aquela canção... tú já não cantas comigo!!!”...
pois não... perdi a vóz, meu amor.. o nó na garganta não sai...

7.6.07

Ajuda-me!

Preciso que me ajudes a esquecer-te, que ponhas mãos à obra, que faças qualquer coisa que se veja. Preciso que pegues no batente, que te esforces um bocadinho, que dês à manivela, que carregues no botão, porque é imperioso esquecer-te. Diz-me que sou feia, que estou velha, que sou tola; diz-me que é ridículo, este amor enganado, impossível, desnecessário, incómodo, que já dura muito para lá do que é aceitável. Atira-me com todo o desprezo que tens à cara, toma balanço, como se uma tarte de natas num filme mudo; deita-me a língua de fora, vira-me as costas, escarnece. Por favor, escarnece. Diz-me que sou absurda, desmesurada, desregulada, que não tens paciência, que estou doida. Encolhe os ombros com enfado, isso, assim. Repete que não me queres ver, ri-te, com pena, encharca-me de pena, olha-me como se eu um cachorro abandonado, que é o que sou. Enxota-me, repete, paternalmente, com asquerosa condescendência, que já não tenho idade, que são coisas de miúda, que devia ter juízo, que não tens tempo nem condições para atentares nos meus desejos vãos de louca varrida. Manda-me passear, bugiar, dar uma volta ao bilhar grande, ver se estás na esquina, que me dás um tiro. Diz-me que te maço, que não me queres por perto, que talvez uma providência cautelar. Manda-me correr para a esquina, que eu irei. Manda-me, que eu irei. Ajuda-me a esquecer-te, que não estou de todo preparada para te amar até ao fim dos meus dias, que grande chatice me foste arranjar, agora, resolve-a, faz qualquer coisa, ajuda-me a esquecer-te.


29.5.07

Sonho


entraste-me no sonho como um mergulho (in)voluntário nas águas revoltas do indico.sabes, desde o dia em que te mudás-te para o outro lado, não consigo passar pela baia sem olhar lá longe na vã tentativa de te observar passeando na areia.
tomás-te de assalto o quarto e o meu corpo e transformàs-te como sempre uma noite serena de sono numa aventura quase louca.
tinhas olheiras escuras e cavadas abaixo dos dois lagos luminosos com que a natureza te brindou. cabelo agora mais comprido, solto e perfumado. a pele fria que vestias sobre o corpo nú arrepiou-me ao primeiro contacto. abracei-te inteira na serena urgência do reencontro enquanto a tua boca percorria caminhos que apenas ela conhece e que invariavelmente me transportam a lugares novos, únicos. usaste-me inteira no tempo sem medida de um sonho, saciando a tua fome de vida e a minha de ti.
o teu corpo e o teu aroma femea. fusão que me persegue em flashback permanente desde aquele fim de tarde memorável que me obrigou a reavaliar tudo quanto considerava saber acerca das muitas formas de amar.
saiste no momento da viagem regressiva da oitava onda, deixando-me como sempre incapaz de te prender ou sequer esboçar um ténue pedido para ficares ate sêr dia.
obrigado pela visita. cumpre-se a promessa jurada entre nós de nunca deixarmos morrer a chama. eu faço a minha parte sonhando-te. tú a tua visitando-me o sono.
apenas um reparo. na próxima noite vem um pouco mais cedo. as madrugadas estão frias e as insónias pós partires entram inexorálvelmente pela manhã, tornando-me o dia numa agridoce ressaca de ti.