13.7.06

HIV-SIDA


Porque muitos lhes conhecemos os rostos. Porque os sabemos algozes, que por terem sido vitimas se transformaram numa das armas mais assassinas que povoam a noite e os dias no nosso mundo. Porque é tempo de começarmos a inverter os papéis. Não temos culpa de um dia numa esquina da vida alguem os tenha infectado. Poderão estas palavras parecer pouco polidas e ainda menos corretas. Sabemos no entanto de muitos casos de portadore(a)s de HIV que no dia a dia continuam a dessiminar o virús a vitimas indefesas. Lemos, vimos e ouvimos todos os dias os nossos amigos, familiares e conhecidos a partirem e os numeros da morte a aumentarem. Cada dia mais jovens. Cada dia com maior sofrimento. Chegou a hora de chamar os assassinos pelos nomes.


ALERTA

Grita-lhes para que acordem,
Chama-lhes nomes feios, ofensivos,
Engravida-lhes os timpanos com abjectos palavrões,
Obriga-os a pensar no mal que semeiam á sua volta.

Ele(a)s são os abutres dos sonhos.
Aquele(a)s que matam, destroem e enganam.
E de uma de forma mórbida, fria e lúcida,
Percorrem a noite na procura de novas vitimas.

Sabem-se audazes, sem medo da morte,
Nada têm a perder porque tudo já perderam.
Enfrentam friamente a vitima com olhos sedutores,
E palavras doces, falsas e urgentes.

Amam sofregamente, oferecem-se sem preço
Deleitam-se e extasiam-se nos corpos das vitimas,
Deixam nas entranhas e no sangue o virús fatal
Da morte anunciada, sem data marcada.

Corta-lhes a estrada. Fá-los parar.

Porque nas picadas da vida,
Exige-se justiça pelas vitimas.

6.7.06

Encruzilhadas

“Apenas existem duas frustrações na vida. Uma é não conseguir nunca encontrar aquele caminho. Outra... é conseguir..”

Confusos...??? eu vou tentar explicar...
Sentes-te mal com tudo aquilo que conseguiste até hoje. Mulheres certas que deixás-te atrás, mulheres erradas que carregas nas costas, emprego chato, prespectivas profissionais nulas, amigos hopócritas.... de repente, ao virar da esquina, num cinema, num bar ou mesmo num chat de internet, algo acontece e abana a pacatez dessa vivência e te leva a esfregar as mãos nesse comum gesto de “desta é que vai”.
Tudo se transforma de uma hora para a outra. As rotinas ficam adiadas, renasce a vontade de lutar e condicionas tudo á prespectiva de um novo momento em que retornas aquele outro. E esses momentos de extase repetem-se seja numa mensagem, numa chamada telefónica carregada de promessas ou mesmo num breve encontro em que tudo se reconfirma e afirma.
Inevitávelmente tudo evolue e ao clik do primeiro momento e á adrenalina dos seguintes, segue-se a certeza confirmada que desta vez estás no caminho certo. Traças essa estrada em função de ti e maquinalmente projectas o futuro, renegando sempre o passado recente mofo e amorfo. E aí, começa exatamente o caminho descendente embora muitas vezes não seja possível identificar de imediato qual o sentido da viagem.
Fazes-te á estrada de bandeira desflardada e nem reparas que aos poucos o vento a vai rasgando. Nem olhas atrás para verificar as vitimas que deixaste tombadas no solo. Ouves-lhes os gritos mas confundes as vozes. No horizonte apenas poderá haver planicies verdes de campos de girassol. As pedras no caminho são apenas precalços. Evitas-las sem as olhar. Aceleras sem hesitação rumo ao futuro imediato porque a urgência assim o determina.
Atingida a meta e carregada a bagagem das certezas incontestáveis, espraias-te na lanzeira das areias douradas e nas crenças absolutas da mudança. Mas a viagem é como uma plantação de delicadas flores. Requer cuidados intensivos cada minuto. Ao minimo fechar de olhos esvai-se o viço, murcha a vontade e a verdade já não é tão verdade assim. Os planos pouco sólidos concebidos na urgência da mudança, são assim mesmo. Pouco sólidos e demasiado efémeros.
E um dia em que a nova viagem já tem mil momentos apenas bons para recordar, descobres a bandeira que é já apenas mastro e pano rasgado sem sentido, e as vitimas silenciosas te olham de longe com ar de indisfarçavel gozo esperando apenas que tombes vencido. É que afinal os campos verdes não são senão o prolongamento esburacado da estrada por onde te tens conduzido toda a vida.
Lá atrás nem tudo já é tão mau assim. Os esqueletos no armário e as mochilas com que te carregaram, afinal nem incomodam assim tanto. Resta-te a resignação e as recordações do filme mental dos momentos. Os bons e os maus. Desses que valem e justificam a vida.
A opção pela mudança será sempre tua. O livre arbitrio da tua consciência ditará o novo caminho e a nova etapa. Mas o salto no escuro, mal planeado e levado pela urgência, por mais tentador que seja, leva quase sempre a um voltar atrás de rabo entre as pernas, tipo cachorro vadio.

22.6.06

Gota


Alguem k está longe merece este poema lindo k um dia recebi por sms.

És
O corpo que me desafia
A percorrer cada milímetro de pele.
Sou,
A gota que desliza,
Te beija
E deseja
E se aloja nos teus sentidos
Fazendo-te minha!!

14.6.06

Amizade e sexo...

Das coisas que mais se orgulhava na vida, era das óptimas relações que tinha vindo a construir com muitas pessoas. Especialmente com amigas mulheres.

Da forma intensa com que lhes dizia e mostrava que o seu afecto por elas era verdadeiro e do que isso lhes provoca sabia ele por experiência. Como dizia um vivido amigo, tratava-se simplesmente de deixar marcar nas pessoas. E na verdade era assim mesmo. Tratava-se de deixar a sua marca personalisada nas pessoas que gostava e naquilo que elas eram, de as fazer sentir redutoramente importantes para ele e de tudo o que isso representava nos seus relacionamentos pessoais. Adorava mais tarde conferir que amigos e amigas suas adoptaram como deles um pouco daquilo que lhes transmitia. E de forma natural fazia sentir aos outros que nesta ou naquela situação mais complexa se recordava deles pelos exemplos de vida que legavam. Uma considerável parte do seu mapa genético afectivo e intimo, era assim património de alguns amigos e amigas que o entendiam de forma cumplice e com quem partilhava as suas e deles experiências e exemplos.

Meses atrás por um mero acidente casual, juntou-se a um grupo restrito onde pontificavam trêz das suas amigas que se enquandravam exactamente no quadro anterior. Por sinal bem acompanhadas pelos legitimos compnaheiros. Importante destacar que a situação que á partida poderia ser potencialmente constrangedora não o era para ele. E pela simples razão de que apenas o afectava o que vinha de fora dele. Para ele, solteiro inverterado, mas incapaz de passar mais que duas noites seguidas sem companhia, o facto de ter ali á mesma mesa trêz mulheres e amigas que de uma ou outra forma tinham partilhado a sua intimidade, agravado pelo facto de se encontrarem acompanhadas, era um facto novo mas que enfrentava sem nenhum tipo de receio.

No fundo talvez aquela coincidencia não o fosse. Conhecia qualquer uma delas em profundidade e sabia que entre elas não existia outra afinidade senão ele. Aquelas tres mulheres pertenciam a um restrito grupo cuja ausência lhe pesava nos tempos de solidão. Eram pessoas importantes na sua vida. De cada uma delas guardava as melhores recordações de momentos de infinitas troca de opiniões e experiências pessoais e de noites de sexo inesquecíveis. No fundo cada uma delas era ainda sua amiga e tinha sido amante. E foram suas amantes no sentido de quem ama, porque as amara e ainda amava profundamente da forma mais bonita que se pode amar.

Gostava de cada um delas de forma diferente e por razões díspares. Cada uma representava um tempo maior ou menor na sua vida. Depois de terminada a relação física nunca tinha deixado de sentir por elas a mesma cumplicidade, o mesmo amor, no fundo a mesma amizade. Foram enquanto a chama ardeu, relações perfeitas. Eram hoje tanto ou mais importantes que antes.

Durante todas a sua vida apenas sabia relacionar-se assim. Cumplicidade, sexo, partilha, solidariedade, amizade. Sempre preferira aos homens, ter amigas mulheres. Principalmente aquelas que comungassem os seus gostos simples pela vida e por aquilo que ela proporcionava. Com a mesma felicidade as convidava para ir ao cinema, ao teatro, para um concerto, para passar a noite a fazer amor, uma tarde a passear no areal da praia ou até para ir ao futebol. Ou isto tudo ou nada. Nunca apenas uma possibilidade. Para que os seus relacionamentos fossem verdade todas as hipóteses tinham de ficar em aberto.

Era uma imagem da sua marca e quem o conhecia sabia disso. O prazer da companhia na partilha de prazeres totais tinha de estar subjacente ao prazer da partilha da cama. Porque, na sua opinião, um homem e uma mulher podem continuar a ser amigos mesmo fazendo amor. Deveria ser mesmo, esta a ancora de qualquer relacionamento de amizade entre duas pessoas livres de sexos opostos. Tal como para ele fazer amor sem amizade representava um completo desperdicio de prazer e de energias. Jamais iria para a cama com alguem com quem não existisse a possibilidade de manter, antes ou depois, uma conversa inteligente superior a duas horas.

Ali, naquele momento não planeado, estava bem clara a prova que a sua teoria era correta. Cada uma daquelas mulheres tinha encontrado com quem completar um ciclo nas suas vidas. Nenhuma delas o teria escolhido a ele nem ele se recriminava para isso. Terminada a relação com ele, ficara a ligação afectiva forte e a amizade incondicional. Cumpria-se assim o unico compromisso que tinha estabelecido com elas. Não existir nunca, compromisso nenhum. No fundo era um compromisso de nunca serem comprometidos, o que aquela noite provava á saciedade que resultara.

Nas estradas e caminhos das suas vidas elas trocaram a luxúria das noites vividas no seu modesto T0 em cama de solteiro, pela serenidade de uma queca semanal e um futuro cheio de crianças á volta. A adrenalina de noites inteiras sem dormir, pela paz segura de uma relação de papel passado.

Mas a indestrutibilidade da sua relação com elas não era a cama mas um compromisso bem maior. E ele estava ali bem representado quando em dado momento se olharam os quatro nos olhos e tiveram exactamente a certeza daquilo que estava a passar nas suas mentes. A ternura do momento selou aquelas vidas definitivamente na sua. Com memórias passadas de acontecimentos memoráveis. Com a cumplicidade dos justos e serenos com a vida.

Os amigos podem ser amantes. Tal como os amigos outrora amantes podem continuar a ser amigos toda a vida. Podem e deviam ser!.

13.6.06

Metades de mim!


Metades de mim

Que a força do medo que tenho, não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca
...Porque metade de mim é o que eu grito... mas a outra metade é cobarde silêncio.

Que aqueles que amo incondicionalmente se mantenham fieis na memória desse amor
Que as mulheres que eu amei sejam para sempre amadas mesmo que distantes
...Porque metade de mim foi partir... mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como preces, nem repetidas com fervor, apenas respeitadas,
como a única coisa que resta a um homem inundado de tão contraditórios sentimentos
...Porque metade de mim é o que digo... mas a outra metade é o que me obriga a calar.

Que a minha vontade permanente de ir embora se transforme um dia, na calma e na paz que não mereço,
E que a tensão permanente que me corrói por dentro desapareça pelo menos durante um dia
...Porque metade de mim é o que vivi... mas a outra metade é o que sonhei viver.

Que o medo da solidão se afaste, e que o silêncio se torne ao menos suportável,
Que o espelho reflita em meu rosto os doces sorrisos perdidos na infância,
...Porque metade de mim é a lembrança do que fui... a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso uma simples alegria para me fazer amainar o espírito,
E que o teu silêncio me fale cada vez mais alto na ansia de despertar,
...Porque metade de mim é a linha do horizonte... mas a outra metade é cansaço.

Que a vida me aponte um caminho definitivo, mesmo que ela não saiba por onde,
E que ninguém tente obstruir essa estrada, porque o que ficou atrás está demasiado perto e o destino muito longe
...Porque metade de mim é esperança... e a outra metade é derrota.

Que os males que provoquei não se apaguem da memória dos outros
E que as recordações me mantenham lúcido na alquimia dos anos vividos.
Porque metade de mim foi cumplicidade.... e a outra metade foi arrependimento.

E que os erros, maus caminhos e loucuras assumidas, sejam perdoadas por quem me amar,
...Porque metade de mim é ainda amor.... e a outra metade, também.

Será isto uma carta de amôr?


Paixão,

quero que me escutes simplesmente
as palavras aqui vão escritas são de alguem
que em consciência sabe não poder ainda falar tudo
porque a nossa história não tem nada de convencional
e o mundo é cruel para aqueles que ousam inovar
porque quero muito um final feliz mas sei quão longo é o caminho

peço-te que leias estas palavras e as entendas
porque elas comemoram o reencontro interior de um homem ferido
que considerava ter perdido para sempre a capacidade de amar e ser amado
mas que descobriu em ti que afinal ainda vale a pena abrir o coração

durante os ultimos anos fiz de conta
que sentir algo assim não era importante nem necessário
mas é
e foste tú a provar-mo de forma inequivoca e indiscutível
e hoje este sentimento que me arrebata e motiva
não só é demasiado importante como começa a ser imprescindível

és talvêz a pessoa mais especial que conheci em toda a minha vida
não por seres muito bonita ou porque partilhes o gosto por coisas minhas
mas por algo bem mais profundo que beleza e afinidades ocasionais
porque te prometes-te inteira e te cumpriste na verdade e na entrega
porque adivinhas-te-nos os desejos mais simples
porque me deixas-te descobrir-te revelando-me aquilo que parecia perdido

sentires por mim amôr ou não pouco me importa neste momento
quero apenas dizer-te de forma bem clara aquilo que me vai dentro
quero falar-te da crescente dimensão da paixão que me invade a cada dia
dos desejos mal contidos de te ter a cada minuto
do ego ampliado pela vaidade de sentir meu corpo dentro do teu
do orgulho machista marialva e felizmente já esquecido
de saber que te fiz sentir mulher completa
dos extases partilhados em unissono na mais absoluta simbiose de corpo e mente
do poder estar ali ao teu lado completo e realizado
de te saber entregue por loucura e paixão
de te entregar-me todo a ti, recebendo-te

quero falar-te ainda dos sentidos
da vontade de te sentir comigo quando estás ausente
daquele presentimento unico de saber que vais chegar
das esperas angustiadas e ampliadas pelo desejo
dos encontros roubados á clandestinidade de uma qualquer cama
dos cheiros do tacto da pele queimando
da magia dos desejos em lava vindos de dentro de cada um
dos momentos mágicos em que teus lábios procuram os meus
dos corpos transpirados e partilhados e abusados
das palavras doces e provocatórias ditas com a vóz rouca do desejo
da serena dor dos momentos das partidas atenuada pela certeza dos regressos
... dos doces reencontros em que tudo recomeça

quero falar-te do meu eu mais intimo
da minha solidão quando estás fisicamente ausente
de quando mentalmente te convoco a mim e tú docemente vens
das minhas mãos que imagino as tuas repartindo caricias no meu corpo
dos meus dedos que guiam teus lábios desenhando circulos no meu peito
do sentir-te ali completa e inteira renovando em mim a paixão inacabada

quero falar-te de sublimes momentos mesmo simples ou menos importantes
como olhar o mar ou o horizonte no fim da tarde
como roubar um sorriso a uma criança
como revisitar o princepezinho pela milésima vêz
como lêr baixinho um poema de Florbela
como abrir uma porta antes fechada
... é na tua companhia que me sinto

não sou melhor ou pior que ninguem
sou apenas alguem que se atravessou no teu caminho
e se oferece hoje para dividir contigo a estrada
alguem que sabe ir cometer muitos erros nesta viagem
mas que te afirma estar disposto a pagar qualquer que seja o preço
... desde que a recompensa sejas tú

que quer reaprender a viver com a paixão que me ensinas dia a dia
sem ansia posse ou ciúme

mas antes de uma forma objectiva e nova
em que a partilha e a cumplicidade seja a unica regra obrigatória
quero ainda que saibas que apostarei a vida para o conseguir
com esperança com vontade e sobretudo com a serenidade que me transmites.

mas não foi apenas por isto que te escrevi estas palavras

a intenção primeira é dizer-te
que estou apaixonado por ti e que esta paixão me dá mt felicidade
porque que és um ser humano lindo e generosa
porque és uma mulher lúcida e inteligente
porque és uma mãe dedicada e presente
porque és uma amante unica e muito sensual
porque te quero e desejo muito fazer feliz
porque me sinto cada dia mais próximo de ti
porque partilhamos muitos identicos anseios

a intenção ultima é deixar-te a certeza de que sei convictamente
que amor não se compra ou se vende ou se inventa
conquista-se primeiro dentro de nós
que amor e paixão não se retribuem por apenas sexo
ou se enraízam na alma...
ou são apenas palavras

8.6.06

Irmã branca de coração africano!

Por alguma razão de espermatezóides XX mais lentos que os XY, os meus pais nunca tiveram nenhuma filha mulher. Apenas três filhos homens, o que ainda hoje obriga a minha velha mãe a aturar e servir como criada quatro machos egoístas e machistas sempre que se lembram de acampar lá em casa e sentar á mesa ás voltas com cozido á maneira dela, queijo de ovelha com presunto e vinho tinto carrascão do velho. O que ela diz fazer com muito prazer, o que é um dos enigmas da minha vida pois não gostaria de pensar que a velha é mentirosa e não entendo o porquê de tal prazer. Mas adiante..
O motivo desta prosa prende-se com o facto de eu ter adoptado, não sei se é o termo correto, uma irmã. Reflexo da inaptidão dos espermatezóides do kota ou não sei bem porquê, aconteceu numa fase da vida necessitar de uma alma femenina para desabafar. Trocando por miúdos. Adoptámo-nos um ao outro pela internet e depois selámos a escritura de adopção e amizade num dia e noite inesquecíveis na velha cidade de Coimbra já lá vão uns anitos. E hoje somos irmãos e amo-a assim mesmo. Raramente falamos mas sei que está lá. Nem sempre das poucas vezes que tenho oportunidade a vou visitar mas ela não se amofina com isso. De vêz em quando mando-lhe uma mensagem e leio-lhe os poemas todos os dias. De quando em vêz ela lê-me nas prosas e deve lembrar-se de mim algumas vezes tambem. Tudo normal, parecemos irmãos de sangue.
Hoje lembrei-me dela. Não por causa de algum poema mais inspirado escrito por ela, mas porque completou mais um aniversário. E para parecermos ainda mais irmãos de verdade eu não vou sequer incomodá-la a telefonar-lhe e quero apenas reafirmar que a amarei sempre porque os irmãos normalmente não se escolhem e a esta mana eu escolhi. Sinto falta dela, gosto dela, ela é talentosa, tem manias estranhas e um blog chamado romadevidro.blogspot.com. Chamo-lhe a minha mana preta e ela chama-me mano mulato e pronto... parabens mana.

Hoje se te desse uma prenda em mão lia-te olhos nos olhos e em vóz alta com sotaque desta Africa que amamos, este poema do velho embondeiro Luandino de que ambos devemos ter uma costela vertical:

SONS

A guitarra
é som antepassado

Partiram-se as cordas
esticadas pela vida.

Chorei fado.

Que importa hoje
se o recuso:

o ngoma é o som adivinhado!

30.5.06

Vida


nasci e cresci nos tempos de trevas
senti-me homem num quarto á hora
em carne de femea alugada
puseram-ne uma arma nas mãos
mas não matei nem mutilei
combati por causas perdidas
mas saí sempre com ideais mais fortes
meti-me por trilhos sem rumo
mas cheguei sempre a algum lugar
sobrevivi de parcas malvas
passei fome mas nunca roubei
fiz filhos em mulheres erradas
mas a todas amei e respeitei
servi a senhores injustos
serviram-me porque os deixei

no fim...

não me arrependo pela vida
estou vivo
porque sei que errei

29.5.06

Lucas Sithole o suicída voluntário


Lucas Sithole estava farto da vida! Carregado de dívidas em todas as barracas da vizinhança, com um ano salários por receber, os quatro filhos metidos nos negócios do Estrela com cadastro mais sujo que caixote de lixo do Malanga, a filha rumando noite sim noite sim até á Feira Popular sob pretexto de visitar uma amiga doente, a esposa sem parar em casa 4 noites por semana no mukero entre Ressano e o Mandela.

Desesperado, um dia, Lucas resolveu suicidar-se. Atou uma corda numa mafurreira velha do quintal de casa. Esta, estava tão seca quanto a vida de Lucas e o ramo quebrou. Ainda teve de suportar um entorse mais de dois meses e o gozo da vizinhança.

Depois, atirou-se para a frente de um chapa ferrugento. Nada. Travou a tempo! Para complementar o fracasso levou ainda uns sopapos da equipa cobrador/motorista.

Tentou com uma pistola roubada debaixo da esteira do filho mais velho. Encravou ou nem balas tinha.

No meio de uma sessão de sura importada de Quelimane e aproveitando a bebedeira geral, solicitou ajuda ao seu amigo Nhamposse, conhecido assaltante e hábil manejador do instrumento cortante, para que este lhe espetasse uma faca no coração. Este invocando motivações religiosas recusou. Era Adventista de Sétimo Dia e aos sábados não trabalhava.

Experimentou com veneno depois de cuidadosamente têr estudado os fornecedores do produto no mercado de Xipamanine. Estava fora do prazo ou era falso. Ainda ganhou uma valente dor de barriga, uma diarreia sanguínolenta e a passagem pelas urgência do hospital de Mavalane..

Estava desesperado! Tinha de encontrar uma solução infalível á prova de mais humilhações. Sózinho em casa numa manhã de ressaca, ligou a televisão. Estava a começar o noticiário matinal da TVM num radioso dia 1º de Maio, Dia do Trabalhador. Foi aí que finalmente viu a luz ao fim do túnel. Era isso! Não podia falhar! Vestiu umas calças á pressa e escolheu no cesto arrumado no canto da sala uma t-shirt amarrotada e abandonada que um dos filhos tinha deixado esquecida por ali. Tambem raramente alguem tivera a coragem de a vestir pois apresentava a imagem de um dos lideres do maior partido oposisionista na frente e uma passaroco mal afamado nas costas. Enfiou uns chinelos, saiu de casa em passo apressado e entrou num chapa, deixando-se levar até á Baixa da cidade.

Ao fim de algum tempo, chegou ao seu destino. Na praça dos Trabalhadores a agitação era geral. O discurso do Presidente ouvia-se por toda a zona portuária aumentado por potentes colunas de som. Falava entusiasmado das conquistas dos trabalhadores, da justiça implacável no combate á corrupção endémica e pela eunésima vêz decretava uma ofensiva generalizada contra o deixa andar que corruía as entranhas do nação e do estado.

As mamanas da OMM ululavam os seus canticos. O povão trabalhador a prazo ou desempregado, batia palmas frenéticamente gritando vivas ao Presidente.

Lucas foi-se entranhando na multidão. Por onde passava as cabeças voltavam-se perante a injúria das imagens da sua vestimenta. Mas ninguem teve coragem de o parar ou interpelar. O seu porte decidido e o factor surpresa jogaram a seu favôr. Quando estava bem perto do palanque imobilizou-se e respirou fundo. Uns minutos depois e aproveitando uma providencial pausa presidencial no desenrolar do discurso, para um copo de água gelada e retemperadora, gritou com toda a força que lhe restava:

-QUEREMOS OS ASSASSINOS DE SIBA-SIBA E CARDOSO JULGADOS!!!

Até o Presidente se engasgou, interrompendo o sorvêr da água gelada e o discurso! As mamanas da OMM silenciaram-se. O povão deixou as palmas e apurou os auriculares orificios. Lucas aproveitou os segundos de silêncio para voltar á carga:

-QUEREMOS TODOS OS CORRUPTOS NA CADEIA!!

Desde os paus de bandeira aos disticos contra e a favôr, passando pelas proletárias ferramentas de manifestação, tudo serviu para fazer calar aquela vós dissonante. Contam até algumas oficiosas testemunhas que o nosso herói sucumbiu com um evidente sorriso de vitória nos lábios. O que ainda mais enfureceu a turba e provávelmente acelerou o seu fim.
Da restante história de Lucas Sithole, o suicida voluntário, conferi eu num retangulo pequeno, sem fotografia na página de necreologia do Jornal Noticias do dia seguinte. O enterro no cemitério de Lhanguene foi acompanhado apenas por familiares e por alguns dos muitos credores.

24.5.06

Texto para uma separação


Ora bem…, olha bem para mim!!
Vamos acertar contas
Porque é no dia de hoje
Que vou embora para sempre!
Mas antes, por favôr
Queres me devolver o equilíbrio?
Queres me dizer porque a paixão sumiu?
Queres me devolver o sono infantil?
Queres te sentar e meu coração consertar?
Queres me deixar assim?
Quer tirar a mão de cima de mim?

Ora bem…, olha bem para mim!!
Queres parar de rezar para chegar o meu fim?
Queres parar de triturar minha alma assim ?
Queres parar de moer no meu próprio cerebro?
Vem cá…,desculpa,não vou embora assim...
Antes, queres ter a fineza de colar-me a alma?

Ora bem…, olha bem para mim!!
Assim: Agora fica de joelhos!
e comeca a cuspir todos os meus beijos.
Assim: Agora recolhe!
e engole a saliva destas línguas.
Varre com a língua meus anseios
Não haverá mais arfares, pulsações,
suores e instintos animais.
Gastaste-me o tempo e não tenho mais.

Ora bem…, olha bem para mim!!
Hoje eu me suicido ingerindo tuas fezes.
Trata-se efectivamente de um despejo.
Renego essa mentira que chamámos de desejo.
Desejo nenhum agora eu vejo.
Pronto, última e derradeira revista
Fica também com esse logro
A que chamaste de amor à primeira vista.

Ora bem, olha bem para mim!!
Limpa esse gosto de seio da minha boca!
E fica com esses presentes que deste:
A caixa de pau, com aroma a perfume,
O relógio da tanga com cabeça oca!
Tira de ti esse sentimento de penetração
esse modo sensual com que me levavas a possuír-te
Esses ritmos de ida e volta e ida e volta
essa humilhante esfregação a que chamaste de tesão.

Ora bem, olha bem para mim!!
Pronto.
Vou partir!
Estou calmo. Quero ficar sózinho
eu com a minha alma.
Agora posso ir.

Adaptado por Lins Carvalho de um poema com o mesmo nome mas criado no feminino

19.5.06

E por que haverias de querer...


E por que haverias de querer minha alma na tua cama?

Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas,
obscenas, porque era assim que gostávamos e me pedias.
Mas não menti gozo, prazer ou lascívia
nem omiti que a alma está além, buscando aquela e a outra. E não menti quando te jurei e te repito: por que haverias de querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos. Ou tenta-me de novo. ...Obriga-me.
(autor desconhecido)

21.11.05

Adeus e Nada...


Ela enroscou-se nele, encostando o peito nú ao seu e passando um braço sob o seu corpo como costumava fazer. Outro braço e uma mão directa ao sexo adormecido. A mesma pressão, o mesmo gesto, nos mesmos sítios habituais. Seguindo uma rotina que ele conhecia como adivinhava os minutos seguintes sempre repetidos.
Seguiu com a mesma cadência. Sem que ele sentisse a emoção duma surpresa. Os mesmos gestos, o mesmo estafado ritual. Uma palavra diferente que fosse teria feito toda a diferença. Um palavra dita aos ouvidos e as mãos a passar lentamente por caminhos novos no seu corpo. Mas nada.
Ele voltou-se para ela e pôs-lhe a boca num seio e fechou os olhos. O travo mel da pele sabia-lhe a fel. Sentiu pena de si. E dela.
Beijou-a, procurando nos lábios dela o encanto da paixão que vivera poucos anos antes. E que fruto tão belo esse amôr tinha gerado. Em vão. Nos lábios apenas um gosto a aromas perdidos, levados pelo instalar mortificador da rotina. Sabores hoje mórbidos que já foram de vida ontem.
Ela levantou a cabeça como fazia sempre. Seguindo o mesmo percurso com a lingua e a boca. Ombros, mamilos, cintura e finalmente o sexo. Sem uma única variante, uma única alteração na viagem mais maravilhosa que dois seres podem encetar. Ficou por ali mastigando o falo na completa incapacidade de o fazêr sentir mais que isso. Provocando aquela dor com os dentes a que ele nunca se habituara e que desistira de lhe pedir que fizesse diferente.
Depois levantou-se sobre ele. Abriu as pernas completamente e deslizou a pelvis até á sua boca. Maquinalmente introduziu a lingua dentro dela. Sentiu ali a verdadeira dimensão do desencontro de dois seres em completo e aberrante incapacidade para se amarem.
Ele frio e mentalmente impotente. Ela estupidamente molhada. Excitada pela tortura de o forçar a amá-la. Com esforço empurrou-a para trás agarrando-lhe as ancas. Ela com ar triunfante deixou-se levar e agarrando o pénis penetrou-se completamente. Sem um gemido. Sem uma contração no rosto. Com a mesma cadência de sempre. Olhos no tecto. Mâos e braços apoiando o corpo no peito dele. Sem uma palavra.
Sem mais uma carícia que fosse. Sem um olhar, olhos nos olhos sequer. Ele permaneceu distante, de costas. Braços caídos. Mãos paralisadas. Membro erecto e viril na sua obrigação de macho esperando ela explodir. Explosão que mais não foi que um rápido arfar urgente que ele bem conhecia e que ela chamava orgasmo.
Pelos olhos fechados dele duas lágrimas espreitaram. Na garganta um nó profundo misto de raiva mal contida, ódio até. E desamôr sem retorno. Ela saiu de cima dele e sorriu-se triunfante de rosto suado. Ele de olhos fechados. Molhados. Corpo mortificado na completa impotência de reconstruir as ruinas dentro de si. Usado. Esmagado no canto do cisne de uma relação que fora sonho belo e terminava em trágico pesadelo.
E ela a deitar-se de rosto já fechado sem uma palavra. Nem higiene. Ele com mais um cigarro e outros na solidâo de uma sala que já fora acolhedora. E mais uma noite mal dormida na mental busca de um caminho que lhe permitisse resgatar das chamas daquele inferno o futuro daquela criança que dormia no quarto ao lado.
No dia seguinte ela acordou gelada. Não tinha ninguém ao lado. A cama fria e abandonada e uma carta na almofada. Abriu-a. Tinha escritas apenas algumas, poucas palavras:
Adeus, nada mais faz sentido aqui. Nada nem ninguem me voltará a usar na vida...

9.11.05

Sinto saudades de ti

sinto saudades de ti,
quando caminho,
quando choro,
quando rio.
quando o sol queima
quando faz frio,
porque te sinto parte de mim


sinto saudades de ti,
nas noites geladas em que não encontro sono,
como sinto tua falta

sinto saudades de ti
em cada passo perdido
a cada momento recordado
em que sei que estou vivendo
mas tambem que estou morrendo
porque sinto tua falta

sinto saudades de ti
quando a manhã começa a dar vida e cores
com as tuas virtudes
com os teus erros

recordas-me ainda
não sei
mas sinto saudades de ti

sinto saudades de ti
sinto tua falta
e as saudades corroem-me...

.....devagar.

2.11.05

A noite e a cidade


Embrenho-me na noite morna
Por entre as ruas esburacadas da cidade.
Procuro um não sei de quê ou porquê.
Quando ando ás cegas deixo-me guiar

Pelo formato alongado das sombras

Pela contramão dos sons de passos sem dono

Pelos acordes de portas envelhecidas

Por instintos naturais porque nascidos ali no momento

Filhos de uma decisão que definitivamente não controlo

Mas que me leva.
Na jornada ofereço-me uma viagem da verdade
Apenas possível de sentir na noite
Dos corpos desvalidos sem abrigo
Dos rostos assustados e sedentos
Da ansiedade feita carne quase morta
Da oferta feita dádiva de amor pago e urgente
Cega, irreal, desamada.
Na vertigem desta lansidão sem rumo
Na procura do nada e de tudo
Encontro-me comigo na noite da cidade.

A falta de amôr


Dizem que os poetas vivem mais intensamente.
E eu que não sou poeta, nem de rua,
Que sou frio, materialista e até céptico,
Que piso na terra fria sem sentir o seu aroma,
Que olho todos os dias o mar rebelde e não o vejo,
Que recebo no rosto o sol da vida e não o sinto,
Que ando ao luar sem sequer olhar a lua,
Vivo agora os dias de forma tão sentida e tão dorida
Que se fosse poeta, gritaria á terra, ao mar, ao sol e á lua,
Quanto vos agradeço por existirem, quanto vos devo neste momento.
Porque a ausência do teu amôr construiu em mim um sêr diferente,
Deu-me luz aos olhos e sentidos á vida
E de forma sublime, arrebatadora e eloquente,
Misturou teu rosto em tudo o que me rodeia,
Impôs-me a tua imagem necessária e urgente.
E assim descobri a intensidade da vida dos poetas,
A força imperiosa e infinita, da reconquista de um amor,
E com ela, a razão porque ainda vale a pena a vida.