12.12.06

Rubem Fonseca


Extrato de "ELA E OUTRAS MULHERES "
ALICE
Nosso filho Gabriel, de catorze anos, era gago. Eu e minha mulher Celina já o havíamos levado a vários especialistas, mas a gagueira dele continuava.

Gabriel era estudioso e passava de ano em todas as matérias, menos em português, em que sempre ficava de recuperação. Conseguíamos um professor para lhe dar aulas particulares e assim mesmo ele passava com dificuldade.
Nas ocasiões em que o professor mudava, o que podia ocorrer quando Gabriel passava de ano, eu e Celina procurávamos o novo professor para falar das dificuldades do nosso filho. Nesse ano, quando marcamos a entrevista, verificamos que quem ia ensinar português ao Gabriel era uma professora, de nome Alice, que fora transferida de outra escola, uma mulher de aproximadamente quarenta anos, separada do marido, sem filhos.

A professora perguntou se Gabriel gostava de ler e minha mulher respondeu que ele detestava e se irritava quando o professor mandava ler um livro da bibliografia. A professora Alice disse que isso era comum, os jovens, com algumas exceções, não gostavam de ler.

Uns meses depois a professora Alice nos telefonou pedindo que fôssemos à escola. Ela nos recebeu gentilmente e disse que haviam sido realizadas as primeiras provas e que Gabriel tivera um desempenho abaixo de sofrível. Acrescentou que ele precisaria de aulas particulares. Minha mulher deu um suspiro, era ela quem tomava conta das finanças da família e conhecia melhor do que eu a nossa situação econômica. Eu sempre achei que Gabriel deveria estudar numa escola pública, mas Celina queria que ele freqüentasse o melhor colégio, cuja mensalidade era uma fortuna.

A professora Alice era uma mulher inteligente e devia ter percebido o nosso embaraço. Ou talvez não tivesse tido a sensibilidade de ler o nosso semblante, apenas notara pelas nossas roupas que nós não pertencíamos ao mesmo nível econômico e social dos outros pais que tinham filhos naquele colégio. Houve um instante em que percebi que a professora Alice olhara os sapatos de Celina, e as mulheres entendem de sapatos, e são capazes de descobrir, pelo sapato de uma mulher, o nível econômico-social a que ela pertence.

Depois de consultar uma agenda, a professora Alice disse que poderia dar as aulas particulares ao Gabriel sem cobrar por isso.

Eu e Celina alegamos, sem muita convicção, que não queríamos dar esse trabalho a ela, mas a professora Alice foi categórica e marcou para todas as terças e quintas-feiras à noite aulas particulares em sua casa.

Aquilo nos deixou aliviados, não apenas deixaríamos de pagar pelas aulas como elas não seriam realizadas em nosso pequeno e desconfortável apartamento.

Um mês mais tarde notei que Gabriel estava deitado no quarto lendo. Perguntei que livro era aquele e ele respondeu que lhe fora emprestado pela professora Alice. Ela é boa professora?, perguntei, e ele respondeu que ela era legal.

Contei para Celina o que acontecera. Ela não acreditou que Gabriel estivesse lendo um livro, disse que ele odiava livros. Acrescentei que era um livro do Machado de Assis e ela fez uma careta dizendo que quando mandavam ela ler Machado de Assis no colégio ela não conseguia e pedia a uma amiga para lhe dizer qual era a trama do livro, e acrescentou que Machado de Assis era um chato insuportável. Mais tarde, quando estávamos na cama, ela disse, essa professora Alice é uma feiticeira. Feiticeira do bem, acrescentou depois de uma pausa.

Mas a professora Alice era muito mais feiticeira do que supúnhamos. Além de ter tido uma boa nota na segunda prova e de ficar lendo diariamente, até mesmo deixando de ver o jogo de futebol na televisão, Gabriel parou de gaguejar.

Celina lembrou-se do médico que dissera que para curar a gagueira de Gabriel precisaria usar um tal de método holístico. Ele explicou o que era, escreveu num papel, que eu guardei. A gagueira, conforme escreveu o médico, só poderia ser curada através do holismo, que busca a integração dos aspectos físicos, emocionais, mentais do ser humano. Segundo o médico, nós não éramos apenas matéria física, nem somente consciência, nem unicamente emoções, éramos uma totalidade que precisa ser analisada em sua inteireza. O tratamento holístico custaria uma fortuna. Creio que ele não olhou os sapatos de Celina.

O certo é que Gabriel não gaguejava mais e ao comentar o assunto no escritório um colega me disse que isso era muito comum, um menino ou menina gaguejava até uma certa idade e de repente parava de gaguejar.

Gabriel não apenas falava com desembaraço, também deixara de ter o aspecto sorumbático de antes. Ter se curado da gagueira lhe fizera um grande bem. E também a Celina, que sentiu-se perdoada. Nós tivemos o Gabriel quando ela tinha dezesseis anos de idade e eu dezoito, ainda solteiros. E ela, que era muito católica, eu diria mesmo uma carola, acreditava que a deficiência de Gabriel tinha sido uma espécie de punição divina e sentia-se culpada.

Convidamos a professora Alice para jantar em nossa casa. Era uma pessoa agradável, inteligente e muito falante. Quem ficou muito calado durante o jantar foi o Gabriel, certamente com medo de gaguejar na frente da professora. Eu o provoquei várias vezes, mas ele respondia monossilabicamente.

Celina perguntou à professora se Gabriel ainda precisava daquelas aulas extras, explicou que não queríamos abusar da sua generosidade. Alice respondeu que ele estava indo muito bem, principalmente na parte de redação, pois passara a ler bastante, mas na gramática ainda havia algumas insuficiências.

Um dia recebi um telefonema de um comissário de menores chamado Lacerda, que disse que queria ter uma conversa reservada comigo. Pedi uma licença no escritório e marquei uma hora à tarde em que Celina estaria trabalhando. Lacerda ao chegar se identificou. Em seguida perguntou se eu conhecia a professora Alice Peçanha. Respondi que sim. Lacerda disse que fora ao colégio e tivera conhecimento de que o meu filho de catorze anos, Gabriel, estava tendo aulas particulares com ela, em sua casa, durante a noite. Respondi que sim. Ele então me disse que a professora Alice Peçanha fora obrigada a abandonar a escola onde ensinava anteriormente, em outra cidade, porque fora acusada de abusar sexualmente de um aluno de treze anos, a quem também dava aulas particulares, mas a acusação não fora devidamente comprovada.

Mulheres pedófilas, disse Lacerda, são raras, essa atração sexual de um adulto por crianças ocorre mais com homens. Então, com uma voz grave, disse que gostaria de falar com o meu filho, para preparar as informações que seriam enviadas ao juizado.

Assim que ele acabou de falar eu perguntei se uma mulher ter relações com um menino de catorze anos faria mal a ele. O comissário respondeu que o Estatuto da Criança e do Adolescente dizia que era crime submeter um adolescente, não importava o sexo, à exploração sexual. Meninos e meninas eram tratados igualmente perante a lei, se não se aceitava que um homem adulto tivesse relações sexuais com uma menina, o que chegava a ser considerado estupro presumido, também não se podia aceitar que uma mulher adulta tivesse relações sexuais com um menino. Disse que era dever deles, comissários, conforme a lei, garantir a inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, dos dois sexos. Lamentava muito, mas precisava ter uma conversa com o meu filho. Se confirmasse que a professora Alice abusava dele, ela seria processada de acordo com a lei.

Concordei com ele, pedi para me esperar que eu daria um pulo no colégio, que era próximo, e traria o meu filho para conversar com ele.

Quando o meu filho chegou o comissário disse que queria falar com ele sem a minha presença. Saí da sala e deixei os dois a sós.

O comissário Lacerda devia ser um homem meticuloso, pois ficou conversando com o meu filho quase duas horas. Depois abriu a porta da sala e me chamou. Disse que o meu filho lhe dissera que a professora Alice jamais tocara nele. E que, conforme a sua experiência em interrogar menores, ele não tinha dúvidas de que o meu filho dizia a verdade.

Antes de se despedir, lamentou o tempo que perdia fazendo investigações baseadas em informações falsas.

Ficamos calados na sala, eu e o meu filho, um sem olhar para o outro. Gabriel, depois de algum tempo, disse que seguira as minhas instruções, fizera exatamente o que eu mandara, tanto que o comissário acreditara nele. Respondi que ele agira bem. Gabriel disse que gostava da professora, que ela curara a sua gagueira, fizera ele gostar de ler, e que o que eles faziam na cama não era nenhum pecado. Respondi que o assunto estava encerrado, que a mãe dele não precisava saber de nada e que eu não queria saber de mais nada.

Gabriel disse que naquela noite tinha aula com a professora Alice, perguntou se devia ir. Eu respondi que sim, ele devia ir a todas as aulas na casa da professora Alice.

Gabriel me deu um abraço. E não falamos mais no assunto.

11.12.06

Hoje vi a minha rosa!!!

Julgava-me muito rico por ter uma flor única no mundo e, afinal só tenho uma rosa vulgar...
Foi então que apareceu uma raposa. - Olá, bom dia! disse a raposa.
- Olá, bom dia! - Respondeu delicadamente o princepezinho...
- Anda brincar comigo - pediu o princepezinho. Estou tão triste...
- Não posso ir brincar contigo - disse a raposa. - Ainda ninguém me cativou...
- Ando à procura dos homens - disse o principezinho. - O que é que "estar preso" quer dizer?
- Os homens têm espingardas e passam o tempo a caçar - disse a raposa. - É uma grande maçada! E também fazem criação de galinhas! Aliás, na minha opinião, é a única coisa interessante que eles têm. Andas à procura de galinhas?

- Não - disse o principezinho. Ando à procura de amigos. O que é que "estar preso" quer dizer?

- É a única coisa que toda a gente se esqueceu - disse a raposa. – Quer dizer que se está ligado a alguém, que se criaram laços com alguém.

- Laços?

- Sim, laços - disse a raposa. - Ora vê:
-Por enquanto, para mim, tu não és senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou senão uma raposa igual a outras cem mil raposas. Mas, se tu me prenderes a ti, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E, para ti, eu também passo a ser única no mundo...
- Parece-me que estou a começar a perceber - disse o principezinho. – Sabes, há uma certa flor... tenho a impressão que estou presa a ela...
- É bem possivel - disse a raposa. - Vê-se cada coisa cá na Terra... tenho uma vida terrivelmente monótona... Mas se tu me cativares, a minha vida fica cheia se Sol. Estás a ver, ali adiante, aqueles campos de trigo? ... não me fazem lembrar de nada. É uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então quando eu estiver cativada por ti, vai ser maravilhoso! Como o trigo é dourado, há-de fazer-me lembrar de ti... - Só conhecemos as coisas que cativamos -
continuou a raposa. - Os homens, agora já não tem tempo para conhecer nada. Compram as coisas feitas nos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens já não tem amigos. Se queres um amigo, cativa-me!
- E o que é preciso fazer? - Perguntou o princepezinho.
- É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas-te um bocadinho afastado de mim, assim em cima da relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas todos os dias te podes sentar mais perto... Se vieres sempre ás quatro horas, ás três já eu começo a ser feliz...
Foi assim que o princepesinho cativou a raposa. E quando chegou a hora da despedida:
- Ai! - exclamou a raposa - Ai que me vou pôr a chorar...
... - Então não ganhaste nada com isso!
- Ai isso é que ganhei! - disse a raposa. - Por causa da cor do trigo... Depois acrescentou:
- Anda vai ver outra vez as rosas. Vais perceber que a tua é única no mundo.
O princepesinho lá foi... - Vocês não são nada, disse-lhes ele. - Não há ninguém preso a vocês... - não se pode morrer por vocês... A minha rosa sozinha vale mais do que vocês todas juntar, porque foi a ela que eu reguei, que eu abriguei... Porque foi a ela que eu ouvi queixar-se, gabar-se e até, ás vezes calar-se. Porque ela é a minha rosa.
E então voltou para ao pé da raposa e disse, -
Adeus...
- Adeus - disse a raposa. - vou-te contar o tal segredo. É muito simples:
- Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos... Foi o tempo que tu perdes-te com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante. - Os homens já se esqueceram desta verdade - Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que está preso a ti. Tu és responsável pela tua rosa...

16.11.06

Desafio-te...


"Ama-me quando eu menos merecer,
......pois é quando eu mais vou precisar!"

15.11.06

O que não sei!!

Sei tanta coisa da vida!
Sei lêr nas nuvens do céu a chegada da tempestade!
Eu sei até porque os homens se odeiam e matam sem razão aparente!
Tal como sei lêr as ondas do mar em dias de tempestade!
E como sei, lêr nos olhos daquela criança com fome, a raiva contida nas recusas de um pão!

Só gostaria de entender e talvêz nunca irei sabêr, porque razão não estás aqui quando sinto cravado no peito, a dôr da nossa ausência!!

7.11.06

Proposta


Texto de Edson Marques:

"Meu território é o da Liberdade Absoluta. Eu cheguei para semear discórdia, quebrar paradigmas, espicaçar padrões. Não trago nenhuma resposta: só pretendo fazer perguntas. Quero mexer na cabeça dos que me ouvem, por fora e por dentro, voluptuosamente! Quero fazer um cafuné maluco e delicioso nos neurônios enrolados de quem me dê atenção. Passar um pente fino nos caracóis da tradição. Porque, assim como Ele, não vim trazer a Paz. Nem venho propor sossego. Eu convido a ter coragem. Eu convido a um salto profundo."

Alguem aceita?

28.10.06

Amanha quero acordar assim!

Maria Teresa Horta

Sem ti

Não quero viver sem ti
mais nenhum tempo.

Nem sequer um segundo

do teu sono.

Encostar-me toda a ti

eu não invento.

Tu és a minha vida o tempo todo

Hoje adormeço assim!!!

Zélia Duncan

Não tem volta

Se você vai por muito tempo
você nunca volta.
Você retorna,
você contorna
mas não tem volta
a estrada te sopra pro alto
pra outro lado
enquanto
aquele tempo
vai mudando.
Aí, de quando
em quando você lembra
aquele beijo,
aquele medomas
você sabe
que tudo ficou antigo
e você não volta
nem com escolta
nem amarrado
porque o passado
já te perdeu
e o perigo
muda mesmo de endereço.
Não existe pretexto.
O dia mudou
o carteiro não veio
o principio é o meio
e você retorna
mas não tem volta.

Hoje acordei assim!

Florbela Espanca

Se tu viesses ver-me...


Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

20.10.06

Tarde demais!



"Por vezes dizemos as coisas tarde demais. Lembramo-nos do que poderíamos ter dito ao outro quando o perdemos ou quando estamos prestes a perdê-lo. Porque nos custa tanto dizer o que podemos dizer no tempo certo?"

19.10.06

Vazio...


Paixão, ainda és a minha princesa e vou continuar a sentir a falta. Principalmente daquilo que sentia quando estava contigo. A serenidade absoluta. A certeza do que queria e do que era dispensável. Parece cola daquela transparente que se vende em tubinhos tamanho miniatura. Não te consigo arrancar daqui. Falta-me quase tudo em mim desde que me desisti de te procurar. Falta-me o cheiro, o riso, a lucidêz. As memórias de ti têm cores e sons e afagos de carinho impossíveis até agora de sentir com mais alguem. A vontade irreprimível de te escrever. Os sentidos ao rubro acesos pelas tuas mãos na minha pele. Os doces minutos pós-sexo que quase sempre terminavam no recomeço. A viagem de regresso que era apenas o inicio da próxima. As ultimas horas antes de cada encontro eram já esse encontro e as seguintes eram a planificação de um outro. Porque sabes, nós nunca terminavamos nada. Tudo tinha continuidade. Nunca me habituei a ter alguem tão perto que me sentisse sem ar para respirar. Sempre desejei amar á distancia certa, o que que significa apenas que troco fácilmente duas ou três horas de compensadora intimidade a dois, por uma noite inteira a dormir e acordar agarrado a alguem. Hoje sinto a tua falta nesta solidão mal acompanhada e pior resolvida. Não sei sinceramente se é de ti que sinto falta ou de mim quando te tinha. Sei que sinto falta.

16.10.06

Liberdade!


Porque me parece MUITO importante e actual, transcrevo este artigo publicado no JN de Portugal e que a minha atenta amiga Maria http://romadevidro.blogspot.com/ enviou!!
Para se ser livre é preciso coragem, muita coragem. E, desde logo, coragem para uma escolha fundamental, a do respeito por si mesmo. Porque é bem mais fácil sobreviver acobardando-se do que escolher viver livremente. Os locais de trabalho, a vida política, a mera existência social, estão (basta olhar em volta) cheios de cobardes de sucesso. O jornalismo não é, e porque haveria de ser?, excepção, pois a pusilanimidade e a cumplicidade dão menos incómodos e rendem mais que a dignidade. Mas, enquanto na vida politica e social, o preço da liberdade é a solidão (as águias, como Nietzsche escreve, voam solitárias; os corvos andam e grasnam em bandos), no jornalismo o preço é às vezes a própria vida. Anna Politkovskaya escolheu a liberdade e pagou com a vida.

Mas a Rússia é um lugar longínquo e entre nós não se dão tiros na nuca a jornalistas, na pior das hipóteses despedem-se. É, por isso, fácil chorar por Anna Polit-kovs-kaya, basta só um pouco de falta de pudor. Assim, os jornais portugueses (e do mundo inteiro, acrescentamos nós) encheram-se nos últimos dias de grasnidos e lágrimas de crocodilo vertidas por gente que, na sua própria vida profissional, escolhe o salário do medo. Alguns conheço-os eu e, como no soneto de Arvers, hão-de ler-me e perguntar "De quem falará ele?".
Manuel António Pina
In: J. N. 2006.10.10

6.10.06

A verdade (copy paste)


Pensara em dizer-lho um milhão de vezes; a vontade de lhe vomitar em cima o que acontecera naquela noite, assaltava-o nos momentos mais estranhos: enquanto ela lia uma revista sentada na sanita, cortava as unhas dos pés ou pintava as das mãos, ou enquanto desembaraçava o cabelo em frente ao espelho. Era como se a insignificância dos rituais diários dela pudesse, de alguma forma, tornar pequeno e de somenos aquilo que ele lhe queria revelar, como se fosse algo igualmente mecânico e descartável, venha daí outra coisa qualquer e sigamos para bingo.
Uma vez, pensara em dizer-lho enquanto ela se depilava numa operação demorada de cera a frio. Olhava-a, febril (ela, concentrada que estava naquele timing perfeito do espalha-arranca), antevendo o momento em que lhe despejaria em cima o seu balde de revelações sujas, qual porteira distraída. O que ele não supunha era que ela, careca de saber da angústia culposa que lhe roía as noites, se concentrava sempre um bocadinho mais nas unhas, nos pés, nos cabelos e se mostrava totalmente indisponível para a abébia que ele queria que ela lhe desse. Se entrava na casa de banho, ela saía de rajada em busca de um creme esquecido e, se se sentava ao seu lado na cama, a ela, assomava-lhe um sono súbito que lhe toldava a percepção. Outras vezes, quando ele estava quase, quase, lembras-te daquela noite em que eu..., ela atalhava, ceifando-lhe as palavras tossidas por entre suores frios, passas-me o papel higiénico, por favor?, ao que se seguia uma reflexão sobre a pasta de papel e o seu peso nas indústrias poluidoras. E ele lá ia adiando a confissão, adiando uma e outra vez, aquele menir que lhe esmagava o esterno sem quase o deixar respirar.
A hipótese de não lho dizer de todo nunca se colocara, pois ele era daqueles que cultivava a verdade a qualquer custo, que a mimava e alimentava como a uma filha ou a uma planta, gerada que fora no seio dos pergaminhos familiares. Assapado no totalitarismo do conceito de verdade como sendo algo de absoluto e válido por si só, escapou-lhe a evidência: de que a dita também pode correr subterrânea, como um lençol freático que segue manso e não deve vir ao de cima nem, muito menos, jorrar tipo geiser, sob pena de inundação diluviana dos sentimentos e de todos os seus anexos. Não intuiu, ele, que alturas há em que a verdade, para o ser, basta ser pressentida, sem precisão de se exibir nua num striptease de perna aberta à volta de um varão, em exposição pornográfica e a arfar sobre os clientes os seus sonhos distantes; e provou assim desconhecer o poder de devastação nuclear de uma verdade que se queria calada - um poder, destruidor não apenas dela própria, mas também de todas as outras verdades que a vida deles transportava em compartimentos interiores e malas de viagem e que, num segundo, se desfizeram em poeira atómica.
Ela tentou dizer-lho: a cada vez que desatava a discorrer sobre o peso do papel higiénico no meio ambiente ela estava a avisá-lo, a enviar-lhe sinais para que guardasse as palavras bem embrulhadinhas dentro dele, para que as dobrasse em quatro, depois em oito e por fim em dezasseis, para que fizesse com elas um quantos queres, um avião, um barquinho ou uma bola de cuspo, e as atirasse ao ar ou lhes puxasse fogo, que ela não as queria. Só que, quanto mais ela fugia, mais ele corria atrás dela, desalmado, a desfraldar-lhe a história daquela noite em estandarte, um vozeirão épico de valquíria a querer sair-lhe do peito e ela sempre a tapar os ouvidos, lailaraiquenãoqueronemsaber.
Que burro fora, ele. Sempre com a boca cheia de verdade, para aqui e para acolá: sobrevalorização nítida. Falta de senso. De sentido das proporções. De instinto de sobrevivência amoroso. Não teriam sido as fugas dela mais do que suficientes para o redimir? Não poderia ele ter visto, na mímica perfeita do silêncio dela (um silêncio atulhado de futilidades) o perdão e a fuga em frente, o beijo do esquecimento, a passagem secreta para os dias seguintes? Poderia... mas não o fez.
Um dia, enquanto ela se secava à pressa de um duche tardio, ele cercou-a e disparou sem dó nem piedade, lembras-te daquela noite em que eu... E ela, apanhada de surpresa entre a água que lhe escorria e a procura dos chinelos de quarto, não foi a tempo de sacar assunto e viu-se obrigada a engolir a verdade com todos os acompanhamentos, batata frita, arroz e salada, uma anoréctica forçada ao alimento. Uma verdade de merda, diga-se: estúpida, como tudo o que é fortuito, e inútil, como tudo o que nada significa de facto.
Pôs-lhe as malas à porta e nunca mais se viram.
Epílogo.
Ele sentiu-se culpado, mas nunca percebeu que o crime maior que praticara não fora o da traição mas sim o da soberba, ao arrogar-se uma superioridade moral sobre ela (que não detinha): ele contara-lhe a verdade daquela noite vazia, não porque achasse que ela merecia sabê-la, mas por uma questão de princípio; não porque a respeitasse acima de todas as coisas, mas porque não se podia permitir perder o respeito que sentia por si próprio.
Ela, por sua vez, não desarvorou em fúrias de mulher enganada nem em gritarias de culebrón (coisa que nem lhe faria o género); passou, apenas, a olhá-lo como o que ele realmente fora: um idiota perdulário, um pobre esbanjador, que deitara fora tanto por tão pouco. No fundo, limitou-se a achar que ele (não fora aquela rectidão transpirada por todos os seus poros, sempre tão honestos e verticais), poderia mas era ter enfiado a puta da verdade em vários outros sítios, que não entre eles os dois. Básicamente.
Copiado de um texto anónimo recebido por email



5.10.06

A Paz!


Ontem foi o nosso dia da paz... No espirito globalizante dos tempos modernos impressionou-me este texto que retiro do Mulheres e Deusas (link na direita) e que fala exactamente da paz que não sabemos preservar e do caminho que estamos a percorrer como humanidade.

“Como é que, só no século vinte, os seres humanos tenham morto para cima de 100 milhões dos seus semelhantes humanos? Seres humanos a inflingirem a outros sofrimento de tal magnitude ultrapassa tudo o que possas imaginar. E isso sem levar em conta a violência mental, emocional e física, a tortura, a dor e a crueldade que eles continuam a infligir-se uns aos outrs assim como a outros seres viventes numa base diária.

Agem desta maneira por estarem em contacto com o seu estado natural, a alegria da vida interior? Claro que não. Só pessoas que estejam em estado profundamente negativo, que se sintam muito mal, criariam semelhante realidade como reflexo do que sentem. Agora estão empenhadas na destruição da Natureza e do Planeta que as sustenta. Inacreditável, mas verdade. A espécie humana está perigosamente louca e muito doente.” (...)

In “O PODER DO AGORA” de Eckhart Tolle

A Outra Margem


Uns anos atrás, amigos mais chegados, martelavam-me na cabeça sempre que me viam acompanhado por uma nova mulher. Embirravam solenemente com a facilidade com que dava corda a qualquer uma que fosse capaz de debater ou mesmo apenas concordar acerca de qualquer tema menos fútil, mais que quinze minutos sem perguntar se era casado, comprometido ou solteiro. Sempre preferi a companhia de mulheres á dos homens e por essa razão buscava incessantemente na alma femenina a inteligência capaz de me adomar a um sofá á volta de um livro ou a uma cadeira de cinema ou teatro e partilhar assim uma mesma visão que no final daria umas horas de compensador debate intelectual muitas vezes como aquecimento para a inevitável, ou não, contenda fisíca.

A natural quebra das convicções marialvas e donjuaninas, o que traduzido de forma clara quer dizer a idade, acabou arrefecendo este afã de viajante e explorador. Agora contento-me em buscar almas tão perdidas quanto a minha e por isso mais capazes de entender aquilo que nem eu sou capaz de perceber.

No acesso a cada mulher existe sempre como que um rio que tem de se transpôr. Da corrente desse rio depende a facilidade de chegar até lá ou mesmo o grau de desafio que representa a intenção. Já lutei com grandiosas ondas e já fui levado simplesmente ao colo. Claro que algumas vezes desisti mesmo antes de começar e em muitos casos afoguei-me. Ás vezes com a margem á vista.

Vem esta prosa divagante e molhada, a propósito de uma prespectiva de afogamento que se avizinha. A corrente altera-se a cada maré e transporta em cada enchente um sem numero de escolhos que impedem um percurso na direção correta. A força das vagas tem-me empurrado em cada tentativa para o ponto de partida. Presistentemente atiro-me de novo ao charco e, olhos e mente no objectivo, luto contra as ondas e a corrente. Em vão até agora. Acabo sempre esfalfado e esgotado na mesma praia.
Da outra margem chegam palavras de incentivo que ainda não produziram os efeitos desejados apesar da sincerdade. O unico efeito claro é o de me obrigarem sempre a retomar a luta e prometer mim mesmo a cada dia não desistir na esperança de uma bonança que permita chegar lá mas as forças começam a faltar.
Para terminar onde iniciei, falta apenas afirmar que aqueles que á uns anos quase me batiam de cada novo investimento, são agora aqueles que me oferecem colete salva-vidas e incentivam a atirar-me de cabeça para a outra margem. Vá lá um homem entender os amigos.

29.9.06

Ausência


Não tenho a certeza que eu seja a pessoa certa para ti, talvêz porque não consegui nunca perceber o que é isso da pessoa certa. Sei que a pessoa certa não tem necessariamente de ser sempre a mais inteligente, a que escreve as mais belas cartas de amor, a que tem apenas sorrisos no final de cada dia ou a que planeia viagens ao outro lado do mundo. Não tenho a certeza que sou a pessoa certa para ti, porque apesar de querer muito ficar contigo nunca tive a coragem de o dizer-te olhos nos olhos. Mas eu sei de saber confirmado que ser o homem da tua vida seria realizar-me. Porque me fazes falta e principalmente porque a tua ausência de mim me dói. Muito.

Tive medo e ansiedade e depois pressa em conquistar-te, porque sei com quem desejo passar o resto da minha vida e como ninguem sabe quanto tempo é o resto desse tempo, corri para depois travar neste impasse que a cada dia me mata. Mas as certezas essas nunca desapareceram. Antes pelo contrário. Aumentaram.

Queria abraçar-te e entrar em ti com a surpresa da paixão da primeira vêz e com o desejo mal contido de todas as seguintes. Queria ouvir em cada final de dia a música da tua vóz e cantar-te baixinho aquela canção igual a ti, antes de adormeceres. Queria ler-te alto os poemas daquele livro que me ofereceste e respeitar os necessários silêncios vindos de dentro das cicratizes que só o tempo poderá apagar em nós.

Queria muito ser o teu amigo e confidente. Queria muito ouvir-te falar das tuas angustias e alegrias, das muitas vidas que viveste e dos mundos que te deram aquilo que és. Da troca de experiências, dos arrependimentos e das nossas loucuras e muitos erros. Queria olhar com os teus olhos aquele mar que ambos gostamos. Queria ouvir contigos os risos inocentes daqueles que amamos mais que a própria vida, correndo livres na areia da praia.

Posso não ser a pessoa mais coerente ou corajosa do mundo, mas sou de certeza uma pessoa a quem conquistás-te completamente. Posso não ser um incurável romântico que te cobre de flores ou corre para os teus braços em cada sms, mas sou de certeza o homem que é capaz de te puxar o edredon para os ombros a meio da noite para não te constipares ou suportar as tuas birras no final de cada dia mau.

Não te disse tantas vezes quantas devia o quanto te quero, mas sinto cada dia com mais certeza que te conseguiria amar para sempre. Não sou aquele que te procura todos os momentos mas sou de absoluta certeza aquele que nunca te esquece em cada noite.

És muito importante na minha vida. Reconhece-lo não me foi nem é dificil. Falta-me o golpe de asa. Falta-me ser eu. Falta-me ter a certeza de ser o homem que esperas que seja apesar da subjectividade. Falta-me a certeza que necessitas de mim e que serei capaz de te dar tanto quanto julgo ser capaz. Falta-me a certeza da outra metade que sou eu.