24.5.07

Cronicas de vida


sinto-te entre as palavras escritas. e na busca do sentido de cada silaba antevejo o momento em que te amarei de novo e solto a imaginação nas memorias de ti. contigo tudo é sempre novo, imprevisivel como a tempestade. belo como o dia que começa. unico como cada fim de tarde na linha do horizonte.


prisioneiro involuntario me reconheço. acorrentado pelo querer e não dever. dividido entre o tudo a que me dou e o nada que te posso dar.

demasiado do que a vida me ensinou, é no teu corpo confirmado em cada momento de reencontro. por isso vale pena viver-te. por isso te aguardo e te desejo.

11.5.07

A Abstinência


Depois de uma desgastante e dolorosa desilusão amorosa, um sujeito decide entrar na legião estrangeira e oferece-se para servir no Medio Oriente. Depois de alguns meses de permanencia no deserto fazendo segurança a instalações petroliferas, ele não aguenta mais a abstinência sexual.
Pergunta a um amigo se há algum bordel na cidade mais proxima, ou algum outro lugar em que possa encontrar mulheres para acabar com aquele sofrimento. “Aqui, no meio do deserto? Nem penses. Se na folga mensal te metes com as mulheres da cidade e és descoberto, cortam-te o pescoço logo. Nestas terras as coisas são assim. Olha, quando a coisa aperta, a saída são as camelas usadas pelas caravanas que pernoitam por aqui”.
Indignado, ele diz que com camela não. Mais alguns meses se passam, porém, e o sujeito começa a mudar de opinião. Como quem nao quer nada comeca a olhar cada vez mais para as frequentes caravanas que passam defronte do seu posto de guarda. Aos poucos a possibilidade de conhecer biblicamente as camelas não lhe parece uma idéia tão má assim. Decidido, pede ao amigo mais informações sobre as camelas. “Vamos encontrá-las esta noite, depois do turno de guarda. Uma caravana com umas vinte esta acampada ali para norte depois das dunas”. “Contem comigo”, diz o sujeito.
No inicio da noite os turnos terminaram, foram feitas as rendições e toda a companhia sai a correr para a duna onde as camelas estão abrigadas. “Mas por que vai toda a gente a correr?”, pergunta ele. Sem perder o balanço, e em passo acelerado o amigo responde: “Tem de se correr mesmo. Ou queres ficar com as magricelas e as feias?”

10.5.07

Carta a um amigo distante.. I


Meu amigo,
Vivo numa terra imensa, onde os olhos quando observam a linha do horizonte, confundem a lonjura das planicies verdes com a grandiosidade azul do Indico apontando caminhos a outros mundos. Onde os homens se igualam aos imponentes embondeiros de raizes profundas, agarradas á terra fértil e mãe.

Terra de gente boa, de pessoas bonitas, alegres, com um coração tão grande quanto a magnitude única de sofrer na carne seculos a fio a dôr das grilhetas e do ferro e do fôgo, e num unico gesto apaziguador conseguir perdoar.

Um pais tão imenso e
tão grandioso, que a justiça, porque madrasta, mesquinha e pequenina, não chega infelizmente para todos!

8.5.07

Desejo


conta-me a tua noite de amor. transporta-me á
verdadeira dimensão dos teus sentidos para que
te possa desejar cada dia mais.
recuso
sequer pensar em mim para alem de ti. sei que te quero
incondicionalmente. não para sempre mas para
agora. com a urgência do desejo ampliado pela absoluta
necessidade de te sentir.

venda-me os olhos. renuncio á visão de ti
pois os teus olhos de fogo acender-me-ão
o coração. podes até nem falar as palavras doces
e os palavrões que imagino sussuras e gritas nos ouvidos
de quem amas. mas usa as mãos em mim para
me sentir. crava-me as unhas na pele mas
deixa o espirito incólume. marca-me com o ferro
inimitável da teu marca mas não me amarres a
paixões para alem daquilo que me podes dar.

ama-me e deixa-me na boca e espalhado na pele
os cheiros agridoces que o teu corpo de femea exala.
isso. encontrei a dimensão exacta do meu
desejo de ti. tacto e cheiros. corpos
transpirados na busca da plena
entrega. dadiva e recompensa. corpos que
encontram num qualquer vão de escada. os
nossos. sem cobranças nem julgamentos nem
contratos
. paixão descontrole apenas. fogo.

encontro pleno e desencontro. com memória.

3.5.07

Noite de viagem


Amei a tua inquietação; e disseste-me que
te amei sem saber porquê, que as marés anunciavam
o luar que não chegou, que não foi preciso
olhar o fundo transparente das palavras
para que a sua verdade nos tocasse, que a tua mão
colheu o fruto da primeira árvore sem que nada
o impedisse.


Amei-te sem ter a certeza da manhã, sem ouvir
o vento que fez bater as janelas num eco do passado,
sem correr as cortinas do mundo para que
ninguém nos visse, sem apagar do teu rosto
o brilho da vida, enquanto as aves dormiam,
e o licor do sonho se derramava sobre os corpos
que cortavam a noite.


Mas ao seguir o seu rumo, o azul
floresceu das cinzas, a música despontou
dos silêncios da madrugada, e os teus olhos
amanheceram quando me disseste que
te amei, sem saber porquê.

Nuno Júdice em: http://www.aaz-nj.blogspot.com/

30.4.07

Ligeira.. ligeirinha!!!


Ontem, enquanto empurrava o baloiço da Sininho num jardim público da cidade, dei comigo a pensar que nos ultimos tempos, para alem dela, foste a ultima pessoa verdadeiramente importante que disse que me amava. E a memoria surgiu porque foi naquele local que á uns tempos atrás, durante uma manhã de domingo, passei mais de uma hora a segurar o triciclo com uma mão e com a outra a manter o celular colado ao ouvido enquanto tentava em vão, secar-te mais uma torrente de lágrimas daquelas que adoras carpir depois de mais uma noite de espera inglória por alguem.

Hoje recebi de ti um email teu em que falas um tal blogue que te leva a recordar-me ou ouvir-me cada vez que o frequentas.
Já a ti, sinto-te a cada dia mais próxima. Não no teu blogue meio abandonado, mas impondo o ritmo do triciclo ou do baloiço ou ainda naquela forma cada vez mais desconcertante e incisiva dela questionar tudo e quantos a rodeiam. Tanto quis que ali estivesse a tua marca, que aos poucos ela se está a instalar mesmo contigo longe.

23.4.07

Msg SMS



Recorda-te de nós. Não creio que seja dificil lá para onde vais, encontrares um pouco da nossa historia e é o minimo que te posso pedir. Afinal não se vive impunemente um amor como o nosso e se sai incólume como se nada se tivesse passado. E depois espero que essas breves recordações não atrapalhem aquilo que dizes ser o principal objectivo desta tua definitiva ausência. A busca de ti mesma. Demora o tempo necessário e quando encontrares, volta para levar o teu coração que teimosamente recusou entrar na mala permanecendo aqui colado a mim. Só assim seremos verdadeiramente livres um do outro.

15.4.07

Carta


Mãe, hoje foi um dia triste. Hoje um amigo morreu. De malária parece. Aqui morre-se de tanta coisa. Morreu, lá longe aqui de Maputo, nas minhas terras de Cabo Delgado onde deixei tanto suor ao longo de 4 anos de trabalho. Tinha mulher e 3 filhos aqui, dois parece que ainda crianças. Por aí, deixou á mais de 20 anos uns tantos filhos e possivelmente uma mulher á espera. Hoje, já ninguem se deve lembrar dele nem ele se preocupava com isso. Nenhum de nós os amigos sabe sequer de onde era natural ou tem um contacto para informar da sua morte. Tambem não deve fazer grande diferença. Era um resistente daqueles que lhes bastou chegar e respirar o ar desta terra para de imediato decidir nunca mais voltar. Mudou de pátria á mais de 20 anos. Agora vai ser comido pela terra de Maputo. Para isso vai ser necessário um camião de dinheiro para trazer o corpo de quase 2.000 kms. Dinheiro que a familia não tem e nós os amigos estamos a tentar juntar. Nem sei porque nos vamos dar a este esforco. No fundo ficar lá sepultado por Cabo Delgado ou em Maputo seria igual. A terra que o vai comer é a mesma e a ele tanto lhe faz, agora.

Hoje tambem, outro amigo foi hospitalizado porque teve uma hemoragia e o sangue não parava de sair do nariz. Entrou numa clinica onde até a folha onde imprimem a factura se paga caro e a primeira coisa que perguntam quando se entra, mesmo que meio morto, é se tem dinheiro vivo ou cartão crédito. Foi operado duas vezes e está todo ligado com uns tubos que não o deixam comer ou falar. Aqui tem mulher e duas filhas crianças. Ai, mais dois filhos que não vê desde que saiu, porque nunca mais voltou. Não vai morrer desta por certo, tambem é um resistente pois anda por cá a batalhar á mais de 10 anos e não me parece que tenha algum dia posto a hipótese de voltar. Agora, saia daquele hospital recuperado ou morto está lá uma conta por pagar que deve corresponder a mais de 1 ano de salário. A familia não tem o dinheiro e nós os amigos estamos a tentar ajudar. Mais uma vez.

Mas mãe, o que eu queria verdadeiramente dizer-te é que eu tambem sou um resistente como sabes mas hoje pus-me a pensar que possívelmente não sou tanto como pensava. Tenho por cá uma vida, alguns amigos importantes, uma mulher em casa, uma filha linda que ainda não conheces e muitas noites mal dormidas por causa de tudo e mais aquilo que tu sabes porque me conheces melhor que ninguem. Deixei aí dois filhos que amo muito, uma mulher que cansou de esperar, o pai, os manos, os sobrinhos e a ti. E podes crer que ao longo destes anos todos, não acabou um unico dia em que não sinta saudades de todos vocês e que não me pergunte a mim mesmo porque troquei tanta coisa importante por esta vida errante.

Mãe, hoje senti muito a falta de tudo o que não fui e arrependimento pelo que sou. Senti muita vontade de estar ai ao pé de ti. Queria muito abraçar-te como faziamos quando eu ainda não tinha cometido tantos erros e sentia muito menos duvidas. E queria conseguir perceber, que raio de feitiço obriga tanta gente a vir de tão longe e nunca mais querer sair desta terra, tal como me aconteceu a mim.
Termino com um pedido simples mas muito importante. Por favor mãe. Não partas de surpresa sem que eu nao esteja bem perto de ti, sem ter tempo de te dizer nos olhos o quanto te amo e o muito importante que és ainda hoje para mim. E não deixes o pai partir tambem. Cuida dele como tens cuidado de mim sempre. Esperem por mim porque em cada dia que passa, em cada desgosto que me abala, sinto estas amarras a soltarem-se.
Eu sei que vou voltar.

11.4.07

Noites de Maputo I


O alcool corria pelas gargantas quase com a mesma intensidade do som que saía das colunas. Muita. Corpos frenéticos agitavam-se na pista de dança, eles e elas fazendo daquele ritual um evidente acto pré-acasalamento. Outros eles e elas, voando em lugares bem longe dali, palpebras semi-cerradas, escoando mentalmente os efeitos de algum analgésico adquirido de certeza por engano, ao dealer de serviço. Outras e outros preferiam o pouco comodo balcão onde recostavam o corpo em evidente posição de espionagem não fosse passar-se algo na sala que escapasse ao seu olhar prespicaz e lingua viperina.
A noite ameaçava transformar-se em madrugada e aos poucos a fauna ia rumando a outras paragens, apesar de a casa estar ainda meio cheia ou meio vazia conforme os gostos analiticos. Prometia animação extra a hora das vassouras entrarem em acção.

Uma breve nota para explicar aos menos familiarizados nestas coisas, que a hora das vassouras nas discotecas de Maputo é aquele momento final em que os barmans já arrumaram as garrafas e recusam servir o copo pró caminho, os porteiros dormem na cadeira, o DJ recoloca pela vigessima vez o mesmo CD, mas mesmo assim voyers, caçadores, caçadoras e fauna bravia, não arredam pé da pista na esperança genuína de a noite não acabar com um regresso a casa a seco. E um ritual de puro engate, que nada a ficar a perder para as cenas habituais nos cabares da Rua Araujo, carregado de emoções fortes principalmente para quem observa de fora. Que normalmente é quem acaba por carregar com o lixo que ninguem mais quer.

Mas esta cronica de maus costumes tem uma personagem como todas as cronicas. Centremos pois as atencoes no nosso heroi anonimo.
Sob o efeito pouco menos que explosivo de meia duzia de Red Bulls misturados com duplos de JB importado de Beirute, posicionou-se num dos locais de visibilidade mais ampla, uns metros bem acima da sala principal. Durante alguns minutos foi obrigado a um exercicio de habituação visual aos flashes, luzes psicadélicas e raios laser, tambem muito por obra e graça da elevada taxa de alcool que lhe corria e corruía o sangue.

Com a visão o menos turva que era possivel dadas as atenuantes, iniciou o exercicio habitual de localizar uma possivel vitima para partilhar as alegrias esfuziantes do final da noite e se possivel as agruras da babaláza no final da manhã. Para isso usava um truque absolutamente inovador de acordo com a sua precepção própria de modernidade. Começava por analisar toda a planicie e áreas limitrofes. Pista de dança, palco, perimetro do balção e cantos menos escuros. Onde visualmente existisse mais carne á vista por m2, seria a sua área restrita de caça. Uma especie de reserva exclusiva ou de forma mais crua, o dumbanengue.

Os factores combinados, pouca roupa muita carne, indiciava a partida um menor risco de insussesso nesta complicada tarefa de caçar em terrenos tão férteis quanto cheios de inusitadas surpresas.
Com as coordenadas da área de envolvimento bem defenidas, faria a aproximação em circulos cada vez mais fechados até ficar de frente com a vitima que teria obrigatoriamente de cumprir todos os requesitos pré-programados. Ou, talvez nem todos. Alguns seriam suficientes. Ou, diremos nós que ninguem nos lê muito menos ele, desde que fosse aproximadamente fêmea, esperancada nuns carinhos mesmo que apressados e um pequeno almoco trivial, atendendo as circunstancias e o andiantado da hora, sairia dali com o destino imediato já traçado. A sua flat, castelo onde os castigos finais normalmente eram infligidos.

Alguns minutos de cuidada observação aerea do terreno, foi suficiente para focar e sinalizar um pequeno grupo de quatro ou cinco gazelas multicolores cujo denominador comum coincidia exactamente com os parametros exigidos a si mesmo para esta ocasiao. Pouca roupa mas de cores espampanantes, muita carne á vista tanto nos membros inferiores como nos dorsos, tissagens e extencoes para todos os gostos e cores e, sobretudo, uma evidente excitacao de corpos que se marrabentavam entre si na busca de contactos fisicos a pedirem urgência de muito mais transpiração que aquela proporcionada pelo ritmo da musica.
Estava ali o quadro perfeito e preferencial da sua programada investida naquela planicie muito frequentada por diversos tipos e raças de caçadores e presas, mas raramente trabalhada a preceito por experts do seu gabarito.

....continua.... em breve....

Sem titulo


No "umamoratrevido" encontrei esta pérola. Mesmo sabendo que os direitos de autor são reservados não resisti.

___________________________

Nunca me deixaram antes, sabes, fui eu sempre que fugi, trancas à porta, adeus que se faz tarde. Nunca me esqueceram primeiro nem nunca amei quem não me amou. Não é presunção, é questão de me fazer todo o sentido: o Amor é um encontro de vontades no espaço sideral, é um nó que flutua, solto, mas que não se desfaz enquanto as duas pontas não se desentrelaçarem em simultâneo. Como poderia amar-te se tu não me amasses de volta? Como poderia amar-te sem conhecer, compreender e aceitar os termos do teu Amor? Se apenas eu te quisesse, o meu querer seria a ponta solta de um cabo eléctrico à deriva numa poça de água, sem rumo, apenas à procura de fazer doer a alguém. Por isso acho estranho, continuar a chorar às escondidas por ti, quando, supostamente e de acordo com todas as regras do bom-senso e da boa vida, tu já nem te lembras que existo. Que sentido faria, encolher-me os joelhos como uma miúda acossada pelos mais velhos e remeter-me, triste, o rosto entre mãos, para o canto do recreio, se tu não recordasses ainda os traços que me compõem o rosto? Seguro de que não te amaria, se não viesses igualmente ao meu encontro, se não corresses algures na minha direcção. Nunca poderia ter continuado a dar-te colo, se me tivesses virado as costas, nunca poderia amar-te as costas, o teu encolher de ombros, esse gingar de ancas desacauteladas. Não entendes? Tens de estar à minha volta, a rondar-me a teimosia, para que eu ainda me lembre de ti. Tens de, por vezes (só por vezes, é o que basta), dormir comigo e de me fingires tua companhia ao almoço, para eu ainda te ter tanto carinho. Tenho de continuar presente na vontade das tuas mãos, na ponta dos teus dedos. Se eu ainda te amo é porque nos encontramos com frequência a meio caminho um do outro, sobre um lago gelado,um campo de trigo, uma estrada deserta. Ou no reflexo de uma chávena de café, no períneo da cidade morta.

____________________

30.3.07

Memorial


Hoje, como rotineiramente acontece todas as manhãs quase madrugada, um pequeno pardal cantador pousou nas grades da janela do quarto principal do castelo e ensaiou o seu cantico habitual, qual Pavaroty de penas.

A Princesa, que já se habituou aquela visita matinal e acredita cegamente na ancestral sabedoria do pai e ele afirma categoricamente que ele, o Pavaroty, pousa ali apenas para lhe dizer bom dia, acordou-me aos gritos.

-Pai.. Pai... ele voltou!

-Ele quem? Perguntei estremunhado debaixo do efeito da babalaza crónica das manhãs.

– Ele... o passarinho... voltou para dizer-me outra vêz “bom dia, menina linda”!

Intrigado com a expressao voltou outra vêz, promovi um inquerito familiar na pessoa da matriarca, alteza do sitio e decifradora habitual daquelas charadas infantis. Que significava aquele voltou? o bicho afinal tinha desaparecido?


-Que sim!, explicou-me a rainha mãe. Desde o dia dos rebentamentos do paiol o animal nunca mais tinha voltado pela manhã e a Princesa andava triste com a ausência do galante trovador.

A ingenuidade e pureza da Princesa culminou num abraço demorado, meigo e cheio de ternura entre “o melhor pai do mundo” e a “filha mais linda do mundo” sobe o olhar ciumento do resto da corte, incluindo amas e serviçais.

Minutos depois não pude deixar de pensar que precisamente á uma semana atrás, da irresponsabilidade e incuria de alguns, confirma-se agora que inimpútaveis, resultou que dezenas de crianças princepes e princesas como a minha, nunca mais ouçam os passaros dizer “bom dia” nem possam abraçar os pais. E tambem eles, reis e rainhas do seu reino eram de certeza os melhores até ao dia em que o seu mundo terminou daquela forma absurdamente evitável.

28.3.07

Rotinas!!

Amaram-se de acordo com os canones da rotina habitual. Ela por baixo, ele por cima esperando o sinal dela. Nada de novo. Nada de beijos ou caricias extras. Apenas sexo, rotina pura, obrigação mutua por cumprir. Quente apenas o mal suportado calor do quarto mal arejado.

Ele transpirando e arfando do esforço fisico, controlava a torrente usando o velho truque de visualizar a sombria cara da sogra megera, ministrando-lhe um dos habituais sermões.

Ela tentando resumir-se naquilo dentro dela, com a cabeça cada vez absorvida nas contas por pagar, na gripe do filho que dormia no quarto ao lado e nos problemas do serviço. Sem qualquer possibilidade de concentração ou prazer. Os olhos fixos no tecto e as gotas de suor que caiam do peito dele directamente no seu rosto inundavam-lhe os olhos de sal. E o peso dele que aumentava a cada mês, ameaçando transforma-lo num bisonte sem fim, incomodava-a e amassava-lhe o corpo.

Sentiu que ele estava já em dificuldades de contenção orgásmica e evidente quebra fisica. A contragosto improvisou um arfar mais fundo e audível! Ele, oportunista, sentiu o sinal e aproveitou para explodir com um reprimido ...ohhhh!!!

Ela fingiu um baixinho ...ahhhh! ainda a tempo de se misturar com o reprimido ...ohhhh!

Ele saiu de cima e enfiou rápidamente os boxers do avesso, agarrou um cigarro e o isqueiro e dirigiu-se ao WC. Ela suspirou de alivio, fechou os olhos e ficou atenta ao momento em que ele regressaria daquela higiene obrigatória. Quando ouviu a porta abrir-se saltou da cama e no corredor, núa, cruzou-se com ele.

-Boa noite amor!

-Boa noite! - disse ele já a bocejar, sem sequer a olhar.

Dez minutos depois deitou-se devagar ao seu lado tendo como companhia apenas o som forte e familiar do ressonar cavernoso que lhe saia do peito. Não demorou tambem a adormecer.

26.3.07

Voz sofucada!!


Os obuses da incúria e da irresponsabilidade
As bombas do desleixo e da indiferença
As balas da absurda impunidade
Os misseis da mentira que destroe a alma

E a voz do medo sufocada...

A tarde que anoiteceu em guerra
De um povo contra si proprio
O sangue gratuito derramado
Desnecessario rio que corre para a morte

E a voz do medo sufocada...

Resignados, recolhemos cadaveres sem nome
Ensurdecidos, escutamos as desculpas gastas
Em silencio, enterramos os mortos
Mudos, engolimos as lagrimas da revolta

E a voz do medo sufocada...

O peito apertado na dor
O grito que não sai da garganta

Patria, mãe amada,
Porque abandonas os teus filhos?

13.3.07

Incompabilidades!!


Abraças-me como se fosse este o teu ultimo mundo. Beijas-me como se nenhum principio ou meio tivesse fim. Amas-me no calor da ultima de muitas noites e usas-me durante as horas em que te sofregamente te amarei incondicionalmente. Amarras-me a ti com as correntes de sentidos que emanam do teu corpo contra o meu, porque convictamente sabes que nunca nos pertenceremos.

Incapazes de parar ou dizer não quando o desejo nos invade e um corpo impiedosamente reclama o outro. Muitas vezes ao longo de muitas luas e alguns eclipses. “Bué” de tempo que quase já se perde na sua própria memória.


Por falar nisso, recordas-te da primeira vez? Eu não. Nem sequer consigo lembrar em que esquina da cidade tropecei contigo. Mas recordo cada segundo cada pormenor, a ultima vez que te amei. Onde, como, e tudo muito que me ofereces. Mais e melhor que na anterior porque em cada encontro fazemos daquelas horas o inicio e o fim de uma vida. A paixao pela vida resumida na procura do extase.
"Não fomos feitos semelhantes para nenhuma das nossas muitas outras vivencias. Incompatibilidade de génios e diferenças insuperáveis de pontos de vista. Genética explica isso", dizes tu habitualmente perante a minha cordata e avisada concordancia.
"Para dançar um tango são necessários dois. Um par em perfeita sintonia. E nós só sabemos dançar tango em momentos destes. Na horizontal e num quarto alugado á hora, atingimos a nota máxima recompensadora não do esforço mas do prazer completo". Acrescentas, convicta.
"A tradicional mistura de preto e branco que nunca dará uma côr viva por mais experimentações que se tentem. Por isso mais vale continuar-mos assim cada um no seu mundo ate que encontremos outros objectivos capazes de suplantar este avassalador desejo mutuo." Contra tais argumentos so sei usar o silencio.

..... "Até á proxima noite minha amante e amiga. E que seja em breve. Para que o teu embriagante cheiro a femea não se desvaneça e o desejo de ti nunca corra o risco de se esquecer de me recordar". Acrescento agora eu em pensamentos, na receosa duvida de que se me ouvisses falar assim, poderias mudar de opinião acerca das nossas incompatibilidades e descobrir a verdade acerca daquilo que me obriga a ti.

20.2.07

Liberdade


"Não é confortável o que te escrevo. Não faço confidências. Antes me metalizo. E não te sou e me sou confortável; minha palavra estala no espaço do dia:

O que saberás de mim é a sombra da flecha que se fincou no alvo. Só pegarei inutilmente uma sombra que não ocupa lugar no espaço, e o que apenas importa é o dardo. Construo algo isento de mim e de ti - eis a minha liberdade que leva à morte."


"AGUA VIVA" - de CLARISSE lISPECTOR