9.11.10

Rosas e espinhos


Plantei uma roseira num vaso que coloquei num local nobre do jardim e que se recusa ano após ano a oferecer-me uma rosa que seja, esquecendo que uma das principais funções de uma fêmea mesmo que roseira é gerar filhos. Estimo-a e trato-a com enlevo. Chego até a amá-la por mais estranho que isso pareça. Ofereço-lhe água todos os dias e periodicamente estrumo-lhe a cama. Protejo-a do frio do inverno, do sol escaldante, do vento agreste e da chuva intensa. Canto-lhe antigas canções de luta, as únicas que decorei dos tempos empolgantes em que ainda acreditava em causas, ao mesmo tempo que lhe remexo lentamente a terra á volta do caule. Chego até a recordar-lhe a minha sincera desilusão por ela não querer dar-me apenas que seja uma rosa e assim retribuir o muito tempo e trabalho que lhe dedico. Das expectativas goradas em um dia sentir o aroma de uma rosa fruto da nossa relação unica. Um dia destes falei-lhe de memória, um poema de um poeta excomungado que morreu enlouquecido pela loucura do mundo. No outro contei-lhe resumidamente a historia dum príncipe que abandonou o seu planeta numa viagem por outros planetas, mas nunca se desligou de uma roseira que lá deixou. De nada tem servido. Indiferente e altiva pareceu nem me escutar apesar de eu saber que ela me ouve e vê pois quando dela me aproximo demasiado as folhas ficam mais verdes e eriça os espinhos de forma ameaçadora.

Estou a pensar em mudar a forma de interagir com ela. Vou abandonar as palavras doces e os cuidados extremos e passar a ser rude e descuidado. Passa a dormir todas as noites ao luar e vou comprar uma daquelas tesouras especiais e umas luvas próprias e podar-lhe os vários rebentos e os espinhos que dela emanam. E vou fingir não me preocupar mais com ela dando maior atenção aos lírios do canteiro ao lado. Quem sabe se também as roseiras, tal como as pessoas, só entendem o verdadeiro sentido do amor e da amizade quando os perdem.