9.10.07

Infernos

Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que no meio do inferno não é inferno, e preservá-lo e assim abrir espaços de precepção.” (150)
Ítalo Calvino- "As cidades invisíveis"

14.9.07

Madeleine


É impossível ficar indiferente perante o desenrolar dos acontecimentos relacionados com o desaparecimento em Portugal da menina inglesa chamada Madeleine McCann.

Nos ultimos dias este caso atingiu foros de surrealismo sem limites com as investigações da policia e a procuradoria da justiça a envolverem os pais no desaparecimento da menina. Nesta onda de muitas palavras e pouco bom senso a imprensa tem desempenhado bem o papel de incendiario travestido de bombeiro.

Como pai e pessoa de bem, recuso-me sequer a imaginar aquilo que muitos já dão como factos consumados. E ainda nessa qualidade manterei até prova em contrário uma esperança inquebrável que aqueles olhos meigos não se fecharam para sempre e que as lágrimas derramadas pelos pais não eram de crocodilo.

É em ocasiões como esta que sinto alguma inveja daqueles que acreditam que rezando, o mundo poderia ser diferente.

4.9.07

Africa misteriosa!

Para quê ir á escola se a geografia ainda por explorar está nas formas únicas do meu corpo, a história da humanidade se pode aprender nos meus olhos, a biologia das paixões se vive nos meus lábios, a química da verdadeira fórmula do amor resulta dos meus beijos e tudo quanto se criou de verdadeiramente belo no mundo até hoje, partiu de dentro de mim!!!

14.8.07

Memórias a preto e branco


estranho.
consta por aí que nos amámos em tempos. que o nosso amor até afrontou a moral vigente nas regras da cartilha retrógada, instituída por aqueles que por falta de vida própria vivem a dos outros. referem pormenores sórdidos e passiveis até de excomunhão. falam de caricias infames partilhadas em público enquanto os corpos transpirados se colavam nas pistas de dança. citam os beijos prolongados até á exaustão com o mar como fundo e o sol quente de dezembro como cumplice. criticam as mãos ousadas que trocavam de corpo debaixo dos casacos nos nossos passeios de fim de tarde pela marginal.

estranho.
não me recordo de absolutamente nada destes factos. não sinto nem guardo mais nada deste tempo que não seja medo. medo de a partir do nada que eu diga ou faça, recomeçar mais uma qualquer acusação gratuita e falsa. medo da incontrolável loucura que te possue
de cada vêz que deixas entrar em ti a irracionalidade da doença incurável do ciúme. medo de um dia não ousar conter a raiva e em vêz de bater com a porta, bater-te a ti. medo de mim. medo daquilo que não consigo compreender por mais esforço que faça. medo de antes de desistir voltar a insistir.

Estranho.
Instalou-se-me uma branca que apagou todo o arco iris de quatro anos de vida. espero que o tempo ajude tambem a apagar o buraco negro em que me meti.

27.7.07

Porque me esperas?

Porque me dizes que esperavas mais de mim? Porquê esperar algo de alguem que nada tem? Porque não racionalizas enquanto esperas, aquilo que podias ter dado a mais, esperando menos?.

Não quero mais obrigações morais, infidelidades escondidas ou passeios de familia para enganar a vizinhança.

Não quero dar mais nada por simpatia ou moralismos. Dei tudo quanto tinha a dar e o que tive de volta basta.

Nem receber, porque assim estou bem. Recebi tudo quanto me devias, porque nada. Paixão, sexo, tesão, não se trocam, vivem-se. Mãos, linguas e corpos transpirados não se repartem, oferececem-se. Amor, carinho, e atenção não se exigem, merecem-se.

De ti quero apenas a distancia entre o silêncio completo e o olhar cumplice. Nada de palavras e cobranças fisicas ou morais. Melhor ainda. Porque sou imoral tal como afirmas, quero a estrada livre para ir e voltar. Sem prévio aviso. Quando o corpo me pedir o teu e o teu me aceitar assim.

Tal como o predador da noite, quero a cancela aberta, escancarada. O salvo conduto para o abismo de onde ambos não merecemos sair.

Mas por favôr, não me exijas em troca que venda a consciência ao desbarato.

30.6.07

As sete maravilhas da blogosfera


Depois de bondosamente votado para As Sete Maravilhas da Blogosfera, nacostadoindico não poderia deixar de participar na nomeação, apesar da subjectividade das opiniões de cada um. Aqui ficam as nomeações cá da casa:
Momentos de Vida - "Qual será o tamanho do Claustro neste cérebro? Uma tempestade tropical de progesterona. Um fenómeno que, ou muito nos enganamos, ainda acaba perpétuado nas montras de muita livraria"

Crónicas - "Intimo, intimista. Revolta interior que transborda para quem lê. Um Xokolate muito doce"

Womanhood - "Tú sabes porquê"

Contos Secretos - "Um hábito diário de auto-carinho. Indispensável"

Ma-chamba - "A verdade contada por quem sabe. A opinião que vale a pena lêr"

Passeai Flores - "O mundo dos baixinhos contado por uma mãe super talentosa"

Cenas de Gaja - "A Princesa que nunca cresce. Sissi no conturbado e confuso mundo dos grandes. Inteligente e pouco convencional"



Existem claro muitos outras praias onde nos perdemos. Mas estas são de visita obrigatória.

25.6.07

Surreal


Quando, ao fim de quatro turtuosos anos de vivência feita de inconscientes surrealismos em que os melhores momentos são os raros períodos de silêncio ou a partilhada paixão pelos filhos, como se distingue o que é a normalidade nas desconexas conversas de surdos que caracterizam o fim da estrada?

Prova de saúde mental não será conseguir sair de um pesadelo destes sem andar a falar sózinho pelas ruas?
Bem... eu ainda ando ás vezes... mas menos agora que á uma semana atrás...

13.6.07

Retalhos de uma semana em farrapos (cacos)



- “Pai, lá no teu escritório tem cama?” ... ops!!! como explicar...

- “ Pai, esta noite destapei-me e tive frio. Tú não me tapaste. Não me tapaste porquê? ....
fod......

- “Paizinho, tú na lavas os dentes pq eu vi a tua escova lá em casa na casa de banho!” ...
será possível k ela ande á procura das minhas coisas pela casa?

- "Paizinho akela foto onde o André e o Daniel estão a rir e a olhar pa mim, k estava na tua mesa a Julia escondeu ou alguem roubou!! ... não minha filha... apenas mudou de mesa... (confirma-se. ela anda á procura dos meus objectos pela casa...)

- "Pai, já não me dizes mais a palavra mágica quando eu acordo?" ....
digo filha, a cada minuto e em cada lágrima, “amo-te”..

- “Pai tu já não gostas da mamy?” ....
desta não me vou safar sem responder...

-“Pai, se não subires para almoçar eu tambem não almoço e prontos...”
....fogo... e agora?

- “ Pai, fecha a luz do escritório e vem agora. Tens de tomar banho e descer comigo. Já tá a ficar tarde e o meu professor fica triste quando chego tarde”.. 6,30 da manhã ao telefone...

- ”Pai sobe comigo ao colo. Tou cansada, estudei mt hoje... depois podes descer e ir trabalhar!” ...
não minha filha se subir vou acabar por descer a chorar outra vêz... pior k isso... já estou...

- "Papá eu amanhã vou trabalhar contigo... depois vamos almoçar... e depois tu vais trabalhar até ser noite e eu vou andar na bicicleta lá no teu escritório. Vou estar todo o dia contigo”... fod.. mais uma vêz k dói tanto...

- "Pai.. eu não quero cantar aquela canção... tú já não cantas comigo!!!”...
pois não... perdi a vóz, meu amor.. o nó na garganta não sai...

7.6.07

Ajuda-me!

Preciso que me ajudes a esquecer-te, que ponhas mãos à obra, que faças qualquer coisa que se veja. Preciso que pegues no batente, que te esforces um bocadinho, que dês à manivela, que carregues no botão, porque é imperioso esquecer-te. Diz-me que sou feia, que estou velha, que sou tola; diz-me que é ridículo, este amor enganado, impossível, desnecessário, incómodo, que já dura muito para lá do que é aceitável. Atira-me com todo o desprezo que tens à cara, toma balanço, como se uma tarte de natas num filme mudo; deita-me a língua de fora, vira-me as costas, escarnece. Por favor, escarnece. Diz-me que sou absurda, desmesurada, desregulada, que não tens paciência, que estou doida. Encolhe os ombros com enfado, isso, assim. Repete que não me queres ver, ri-te, com pena, encharca-me de pena, olha-me como se eu um cachorro abandonado, que é o que sou. Enxota-me, repete, paternalmente, com asquerosa condescendência, que já não tenho idade, que são coisas de miúda, que devia ter juízo, que não tens tempo nem condições para atentares nos meus desejos vãos de louca varrida. Manda-me passear, bugiar, dar uma volta ao bilhar grande, ver se estás na esquina, que me dás um tiro. Diz-me que te maço, que não me queres por perto, que talvez uma providência cautelar. Manda-me correr para a esquina, que eu irei. Manda-me, que eu irei. Ajuda-me a esquecer-te, que não estou de todo preparada para te amar até ao fim dos meus dias, que grande chatice me foste arranjar, agora, resolve-a, faz qualquer coisa, ajuda-me a esquecer-te.


29.5.07

Sonho


entraste-me no sonho como um mergulho (in)voluntário nas águas revoltas do indico.sabes, desde o dia em que te mudás-te para o outro lado, não consigo passar pela baia sem olhar lá longe na vã tentativa de te observar passeando na areia.
tomás-te de assalto o quarto e o meu corpo e transformàs-te como sempre uma noite serena de sono numa aventura quase louca.
tinhas olheiras escuras e cavadas abaixo dos dois lagos luminosos com que a natureza te brindou. cabelo agora mais comprido, solto e perfumado. a pele fria que vestias sobre o corpo nú arrepiou-me ao primeiro contacto. abracei-te inteira na serena urgência do reencontro enquanto a tua boca percorria caminhos que apenas ela conhece e que invariavelmente me transportam a lugares novos, únicos. usaste-me inteira no tempo sem medida de um sonho, saciando a tua fome de vida e a minha de ti.
o teu corpo e o teu aroma femea. fusão que me persegue em flashback permanente desde aquele fim de tarde memorável que me obrigou a reavaliar tudo quanto considerava saber acerca das muitas formas de amar.
saiste no momento da viagem regressiva da oitava onda, deixando-me como sempre incapaz de te prender ou sequer esboçar um ténue pedido para ficares ate sêr dia.
obrigado pela visita. cumpre-se a promessa jurada entre nós de nunca deixarmos morrer a chama. eu faço a minha parte sonhando-te. tú a tua visitando-me o sono.
apenas um reparo. na próxima noite vem um pouco mais cedo. as madrugadas estão frias e as insónias pós partires entram inexorálvelmente pela manhã, tornando-me o dia numa agridoce ressaca de ti.

25.5.07

Recado


Vem até cá: conversamos um bocadinho o amor que deixámos por fazer, relembramos os parágrafos que nos deslassaram os abraços ferozes e soletramos os beijos que não demos. Partilhemos a vontade ociosa de sermos melhores do que aquilo em que nos tornámos.

24.5.07

Cronicas de vida


sinto-te entre as palavras escritas. e na busca do sentido de cada silaba antevejo o momento em que te amarei de novo e solto a imaginação nas memorias de ti. contigo tudo é sempre novo, imprevisivel como a tempestade. belo como o dia que começa. unico como cada fim de tarde na linha do horizonte.


prisioneiro involuntario me reconheço. acorrentado pelo querer e não dever. dividido entre o tudo a que me dou e o nada que te posso dar.

demasiado do que a vida me ensinou, é no teu corpo confirmado em cada momento de reencontro. por isso vale pena viver-te. por isso te aguardo e te desejo.

11.5.07

A Abstinência


Depois de uma desgastante e dolorosa desilusão amorosa, um sujeito decide entrar na legião estrangeira e oferece-se para servir no Medio Oriente. Depois de alguns meses de permanencia no deserto fazendo segurança a instalações petroliferas, ele não aguenta mais a abstinência sexual.
Pergunta a um amigo se há algum bordel na cidade mais proxima, ou algum outro lugar em que possa encontrar mulheres para acabar com aquele sofrimento. “Aqui, no meio do deserto? Nem penses. Se na folga mensal te metes com as mulheres da cidade e és descoberto, cortam-te o pescoço logo. Nestas terras as coisas são assim. Olha, quando a coisa aperta, a saída são as camelas usadas pelas caravanas que pernoitam por aqui”.
Indignado, ele diz que com camela não. Mais alguns meses se passam, porém, e o sujeito começa a mudar de opinião. Como quem nao quer nada comeca a olhar cada vez mais para as frequentes caravanas que passam defronte do seu posto de guarda. Aos poucos a possibilidade de conhecer biblicamente as camelas não lhe parece uma idéia tão má assim. Decidido, pede ao amigo mais informações sobre as camelas. “Vamos encontrá-las esta noite, depois do turno de guarda. Uma caravana com umas vinte esta acampada ali para norte depois das dunas”. “Contem comigo”, diz o sujeito.
No inicio da noite os turnos terminaram, foram feitas as rendições e toda a companhia sai a correr para a duna onde as camelas estão abrigadas. “Mas por que vai toda a gente a correr?”, pergunta ele. Sem perder o balanço, e em passo acelerado o amigo responde: “Tem de se correr mesmo. Ou queres ficar com as magricelas e as feias?”

10.5.07

Carta a um amigo distante.. I


Meu amigo,
Vivo numa terra imensa, onde os olhos quando observam a linha do horizonte, confundem a lonjura das planicies verdes com a grandiosidade azul do Indico apontando caminhos a outros mundos. Onde os homens se igualam aos imponentes embondeiros de raizes profundas, agarradas á terra fértil e mãe.

Terra de gente boa, de pessoas bonitas, alegres, com um coração tão grande quanto a magnitude única de sofrer na carne seculos a fio a dôr das grilhetas e do ferro e do fôgo, e num unico gesto apaziguador conseguir perdoar.

Um pais tão imenso e
tão grandioso, que a justiça, porque madrasta, mesquinha e pequenina, não chega infelizmente para todos!

8.5.07

Desejo


conta-me a tua noite de amor. transporta-me á
verdadeira dimensão dos teus sentidos para que
te possa desejar cada dia mais.
recuso
sequer pensar em mim para alem de ti. sei que te quero
incondicionalmente. não para sempre mas para
agora. com a urgência do desejo ampliado pela absoluta
necessidade de te sentir.

venda-me os olhos. renuncio á visão de ti
pois os teus olhos de fogo acender-me-ão
o coração. podes até nem falar as palavras doces
e os palavrões que imagino sussuras e gritas nos ouvidos
de quem amas. mas usa as mãos em mim para
me sentir. crava-me as unhas na pele mas
deixa o espirito incólume. marca-me com o ferro
inimitável da teu marca mas não me amarres a
paixões para alem daquilo que me podes dar.

ama-me e deixa-me na boca e espalhado na pele
os cheiros agridoces que o teu corpo de femea exala.
isso. encontrei a dimensão exacta do meu
desejo de ti. tacto e cheiros. corpos
transpirados na busca da plena
entrega. dadiva e recompensa. corpos que
encontram num qualquer vão de escada. os
nossos. sem cobranças nem julgamentos nem
contratos
. paixão descontrole apenas. fogo.

encontro pleno e desencontro. com memória.